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domingo, 30 de abril de 2023

SERENATA E SAUDADE

 As duas músicas Serenata e a Marcha Saudade são muito especiais. Tenho comigo os originais, manuscritos, escritos em grande folhas de papel pautado. Não me lembro como chegaram até mim...

Um dia, a muitos anos atrás, eu e minhas irmãs fomos até Ouro Preto. Minha tia Lygia, filha de Luiz Marzano, morava nos fundos da loja Marzano, no mesmo local onde meu avô manteve sua alfaiataria. 

A parte da frente da loja estava igual: grande armários envidraçados com suas peças de tecido, os balcões, também imensos e pesados, cheios de gavetas e essas, por sua vez, cheios de botões, fitas, zíperes, linhas, agulhas, uma infinidade de coisas que me encantavam. Nos fundos minha tia construiu uma casa para morar. Era pequena e esquisita para mim... Cheia de escadas estreitas que desciam para a sala e a cozinha, subiam para um quarto e uma espécie de sótão com lavanderia. Neste sótão se entrava embaixo do telhado. Neste lugar estavam várias partituras e livros de música. Um pouco abandonados, cheirando mofo. Ela nos deu esse material. Talvez, não me lembro bem, no meio deles estivessem estes manuscritos.

As duas músicas foram escritas com muito capricho. Meu avô usou sinais de dinâmica, escreveu a mão esquerda (o que não fez na maioria de suas valsas) e usou ornamentos. 

A Marcha Saudade é muito bonita. Quase toda tocada com oitavas nas duas mãos, tem duas partes: a primeira em modo menor e a segunda em modo maior. Não é uma peça difícil, mas exige uma atenção do pianista para destacar os contracantos da mão esquerda que dialogam com a melodia.

                              


A música Serenata é diferente de todas as composições do meu avô. É bastante elaborada, em compasso composto 6/8 na tonalidade de Sol Maior. A segunda parte está em modo menor. Na partitura meu avô indica os solos de instrumentos como flauta e violino. Sua maneira de grafar as ligaduras é muito precisa. 




É possível acessar as partituras em arquivo pdf nos links:

Serenata:

https://drive.google.com/file/d/1yS39d8UZmKwY_NJD6MFdtdAz4ERfV-V_/view?usp=share_link

Marcha - Saudade:

https://drive.google.com/file/d/19dqQ_OWZhie2Au5MhS90sv-bnFSnFgwh/view?usp=share_link


                                        Maria Virgínia Rietra Marzano

quarta-feira, 26 de abril de 2023

A história continua...

    Por causa destes feitos, aqui relatados, e muitos outros, Luiz Marzano foi ficando conhecido, particularmente na cidade de Ouro Preto e região. Conhecido e estimado. Tanto foi, tanto fez, que em 23 de outubro de 1967 o então prefeito de Ouro Preto, Genival Alves Ramalho, através da lei numero 194 dispôs sobre a concessão de título de cidadão ouropretano a Luiz Marzano. Assim, aquele jovem que deixou um dia sua terra natal, foi efetiva e publicamente acolhido na casa que um dia escolhera morar. O texto da lei é bonito, e traz em si uma forte marca democrática: “O povo do município de Ouro Preto, por meio dos seus representantes, decretou (...) conceder o título de Cidadão Honorário Ouropretano ao Sr. Luiz Marzano, natural de Entre Rios de Minas” 

    Luiz Marzano foi, na verdade, um homem que mereceu essa congratulação. Nele muitos reconheceram “o senso de honestidade; o respeito ao próximo independentemente do sexo, raça ou faixa etária; o amor ao trabalho; o espírito de solidariedade dentro de uma comunidade, e acima de tudo o amor ao país em que nascemos e fomos criados, que é o melhor país do mundo” (como descreveu Luiz Marzano Filho, em seu livro “Um Sonho... o Éden”, p. 110). Diríamos ainda mais: foi um homem com um olhar aguçado e voltado para o futuro, atento às notícias e novidades, bom companheiro na conversa (seja no bar, na boemia ou no seu balcão de trabalho), sensível em sua interpretação do mundo e amoroso com a vida e com os que lhe cruzaram o caminho. 

    Por essas razões, em 02 de maio de 1973, “Ouro Preto recebeu consternada a notícia do falecimento do mestre Luiz Marzano. E, com sua morte, calou-se a harmonia suave das noites enluaradas de Ouro Preto” (idem acima). Entretanto...Uma boa história nunca chega ao fim. E essa, a história de Luiz Marzano, não será diferente. Ainda mais com o auxílio carinhoso de Maria José Trópia. Sua descendência está aí para recontá-la, retomá-la e fazê-la continuar. 

    Por isso idealizamos neste abril de 2023, bem próximo à data que marca os 50 anos de falecimento de Luiz Marzano, um evento especial que reacenda sua história, trazendo à memória – não só dos familiares, mas de todos os ouro-pretanos e cidadãos do mundo – fatos de sua vida como alfaiate, músico, compositor e regente de banda. Este blog nasce no cerne dessa iniciativa. Além dessa breve biografia, compilamos aqui suas obras musicais, compartilhando suas composições (as que conseguimos, em nossa pesquisa e coleta, localizar) com o público interessado em conhecê-la e interpretá-la. Esperamos que gostem. 










Luiz Marzano rodeado por filhos e netos - Ouro Preto/1966




Logotipo do Evento "Luiz Marzano : Entrelinhas"
Criação: Tiago Silva e Santana