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quarta-feira, 26 de abril de 2023

Moyses Marzano e Minelvina

        Nesse momento de nosso relato, cabe trazer à memória um casal italiano. Ele, Angelo Marzano, nascido em 08 de janeiro de 1827, em Lagonegro, Potenza, Basilicata e ela, Tereza Mazzaro, nascida em 22 de abril do mesmo ano e no mesmo local de Angelo, com quem viria a se casar em 27 de dezembro de 1852.

        Possivelmente na esperança de um futuro promissor e de poder ver realizados alguns sonhos (quem os saberá?), o senhor Angelo Marzano e a sua senhora, agora Teresa Marzano, deixaram a terra italiana, embarcando em Nápoles no navio La France em direção ao Rio de Janeiro, onde aportaram em 03 de agosto de 1882:

        Chegou ao Brasil em 03 de agosto de 1882 (Rio de Janeiro). O "Vapeur La France", que saiu de Marseille, France, em 14 de "juillet" (julho" de 1882), parou em "Genoa" (Gênova) e, após, em "Naples" (Nápoles), chegando ao Rio de Janeiro em 03 de agosto de 1882, recebendo a notação, no Porto do Rio de Janeiro, de "BR.AN.RIO.OL.O.RPV.PRJ 1742" Pois bem, na listagem pode-se ver, com certa clareza, dois passageiros: ANGELO MARZANO, nº origem 7, profissão "Ferblantir" (Ferreiro - ou funileiro), casado, passageiro da 3ª Classe, embarcado em "Naples" (Nápoles) Teresa Marzano, nº origem 8, casada, passageira da 3ª Classe, embarcada em "Naples" (Nápoles) Ambos chegaram ao Rio de Janeiro e foram para Entre Rios de Minas.  (disponível em https://www.familysearch.org/tree/person/details/LTZJ-S58#:~:text=3%20colaboradores%20anteriores-,Chegou%20ao%20Brasil%20em%2003%20de%20agosto%20de%201882%20(Rio%20de,VER%20TODAS%20AS%20ALTERA%C3%87%C3%95ES ,ultima alteração em 17 de outubro de 2022, realizada por Paulo Marzano Cintra.)

        Angelo Marzano e Teresa (na época ambos com cerca de 55 anos), não foram os únicos a buscar uma nova vida no Brasil. Pelo menos três de seus cinco filhos também vieram para cá, de acordo com registros que encontramos: Salvatore, Moysés e Gesualda Marzano.

        Em um trabalho de pesquisa, também registrada no site www.familysearch.org, por Paulo Marzano Cintra, encontra-se cópia do cartão de imigração digital de Salvatore Marzano (nascido em 11/08/1863), jornaleiro, que teria chegado ao Brasil em dezembro de 1880 com apenas 17 anos (disponível em https://www.familysearch.org/photos/artifacts/161463495?cid=mem_copy).

        Quanto a Moyses Marzano, seu nome consta como o passageiro de número 647 do Vapor Baltimore, listado na página 19 do documento br_rjanrio_ol_0_rpv_prj_01142,  pela Divisão de Polícia Marítima, Aérea e de Fronteiras. Ele teria saído de Gênova com destino ao Rio de Janeiro, onde chegou em 18 de janeiro de 1880, com 24 anos. (disponível em https://www.familysearch.org/photos/artifacts/161468889?p=21213199&returnLabel=Moys%C3%A9s%20Marzano%20(LK4G-Q3F)&returnUrl=https%3A%2F%2Fwww.familysearch.org%2Ftree%2Fperson%2Fmemories%2FLK4G-Q3F ).

        A vinda de Gesualda Marzano, por sua vez, é conhecida de acordo com relato de Sonia Thereza Borges de Souza, em grupo de família do Facebook (PAGLIAMINUTAS, AVERSAS, MARZANOS E PANZERAS), narrado por Tiago Navarro, membro do grupo em fevereiro de 2021. Segundo esse relato, “Moyses Marzano acolheu sua irmã Gesualda Marzano quando ela chegou da Itália. Ela foi com as crianças Angelo Panzera, Giovanni Panzera, Maira Philomena Panzera e Maria Carmela Panzera para um lugar onde os italianos trabalhavam. Ela trabalhou em São João d'El Rei num lugar de imigrantes italianos, que até hoje se chama Colônia”.

                                                            

                                                   


Moyses Marzano
1940



             Moyses Marzano (ou Mose Marzano ou, ainda, Moisés Marçano), nascido em Lagonegro, região da Basilicata (Itália), em 28 de outubro de 1855, se estabeleceu na região que hoje compreende o município de Entre Rios de Minas e  desposou  Minelvina  Maria de Jesus Lisboa. Minelvina, nascida naquela cidade em 22 de abril de 1866, era filha de um imigrante português, Antonio dos Santos Lisboa e de Maria Delfina de Jesus  (ou Maria Delfina Coelho): Fonte: "Brasil Batismos, 1688-1935", database, FamilySearch (https://familysearch.org/ark:/61903/1:1:XV7R-GLR : 14 February 2020), Maria dos Santos, 1866.

O casamento foi celebrado em Entre Rios de Minas, (https://www.familysearch.org/photos/artifacts/131501725?cid=mem_copy), em 28 de novembro de 1885. Tiveram pelo menos doze filhos (vivos até a idade adulta), mantendo a tradição de nomear os dois primeiros com os nomes dos avós paternos: Angelo, Maria Tereza, Emília,  Valentim, Nicolau, Luiz, Margarida, Antonio, Salvador, José, Ana e Francisco.

Moyses, segundo relatos de seus descendentes, prosperou construindo alambiques para fazendeiros da região e posteriormente trabalhou no comércio. A comemoração das bodas de ouro do casal (50 anos de casamento), foi realizada em Entre Rios de Minas, com a presença de muitos familiares e convidados, sendo a festa comentada durante muito tempo e registrada em uma bonita e interessante fotografia, onde reconhecemos muitos de seus filhos e netos.

Moyses faleceu em Entre Rios de Minas, em 01 de novembro de 1941 e Minelvina faleceu dois anos depois, em 29 de dezembro.






Fotografia tirada por ocasião das Bodas de Ouro do casal Moyses e Minelvina
(Entre Rios de Minas, 1935)


O Nascimento de Luiz Marzano

        Dez anos depois de seu casamento com Moyses Marzano, Minelvina deu à luz a um menino, Luiz.

        Isso de acordo com a via de sua Certidão de Nascimento tirada em 2001. Ali, consta a seguinte data de nascimento: 26 de novembro de 1895.

        Entretanto, todo mundo já ouviu alguma história sobre os nascimentos de “antigamente”, isto é, da época anterior  ou mesmo contemporânea à sistematização e à universalização do registro civil, imposta pelo Decreto 9886 de 7 de março de 1888. Esse Decreto, que efetivamente entra em vigor somente em 1889, instituiu a obrigatoriedade do registro de nascimento, casamento e óbito em ofícios do Estado, deixando então esse ato de ser prerrogativa da Igreja Católica. A população do interior do país, particularmente, demora a incorporar esse dever, seja pela ausência de cartórios próximos ao local de residência ou por outros motivos. (disponível em https://pt.wikipedia.org/wiki/Registro_civil_no_Brasil)

        Portanto, não nos causa tanta estranheza que encontremos pelo menos, além da certidão em questão, outros dois registros diferentes de datas para marcar o início da vida de Luiz Marzano: aquele anotado em sua carteira de identidade emitida em 1949 (foto abaixo) e aquele mencionado pelos seus filhos e mesmo netos que conviveram mais de perto com ele. No primeiro caso, o ano de nascimento é 1897.

        No segundo caso, marcado afetivamente pela comemoração inclusive de seus aniversários, Luiz Marzano teria nascido em 24 de novembro de 1896!

        Dois de seus filhos, movidos pelo propósito de manter viva a história de Luiz Marzano, bem antes dessa iniciativa de agora, falam dessa mesma data.

        Vinicio Marzano há muito procurou reunir a obra do pai (composições musicais, das quais falaremos mais tarde), organizá-la em um pequeno caderno que distribuiu para os irmãos e alguns sobrinhos e o fez, precedendo as cópias com uma pequena biografia, que se inicia da seguinte forma:  Luiz Marzano nasceu em Entre Rios de Minas MG em 24 de novembro de 1896...”

        Luiz Marzano Filho, ao publicar seu primeiro livro “Um Sonho... o Éden”, em 1998, também dedica o apêndice aos pais, relatando que “Meu pai...nascido em 24 de novembro de 1896...” (FILHO, Luiz Marzano. Um sonho...o Éden. Ouro Preto. 1998, p. 106).

        Há ainda um caderno, distribuído em Ouro Preto não sabemos precisar exatamente em que ano, em cuja contracapa uma breve biografia também reforça a idéia de que ele teria nascido em 1896.




Certidão de Nascimento Luiz Marzano






Biografia anexada a conjunto de partituras musicais de Luiz Marzano, organizadas por Vinicio Marzano por ocasião de Encontro de Família em 1998, realizado em Belo Horizonte, MG







Carteira de identidade Luiz Marzano 1949



        Vamos então, por esse momento, deixar de lado o rigor quanto a essa questão de data de nascimento. Não nos referimos, anteriormente, que o início das histórias é sempre marcado por algum referencial particular?

        Aliás, vamos prosseguir agora com um pouco de ficção e poesia? (essas primeiras páginas estão nos  parecendo um pouco enfadonhas com tantas referências de data e de marcas biográficas....)

O Menino Luiz

        Aquele menino, o Luiz, era inquieto. Não lhe bastava aquela vida em Entre Rios de Minas, junto à família, naquela rotina e casa de sempre. Seu coração se inquietava, já precocemente batia num ritmo diferente, prenunciava uma melodia que ia ser diferente daquela que parecia ter sido composta para ele por seus pais.

        Seus olhos sonhavam com um pouco de aventura: afinal seu pai e avós não haviam cruzado o oceano para buscar novas terras? Quem, então, se oporia a seus sonhos, àquela voz que lhe falava de uma vida diferente, mais promissora?

        Na lida diária, ajudando sua mãe, a lhe trazer a lenha, a cultivar a horta, a cuidar da criação da família, ia distraído, cantarolando as canções que ouvia – aquelas que relembravam a terra italiana dos seus antepassados e também aquelas aprendidas com o povo que por aqui já se encontrava (gente do gado, gente da lavoura, mistura colorida de sons e origens) – canções  que avós, tios e outros parentes faziam soar nas reuniões familiares.

        Curioso, espichava o ouvido para escutar as conversas dos passantes, ouvia falar das cidades próximas, das novidades. E assim, um dia, ouviu falar daquela cidade encantada, que ostentava casarões e palácios, que acalentara um grande sonho de liberdade, que pairava no momento um pouco esquecida, pois deixara de ser a capital do estado. Mas continuava solene, rodeada de serras, e de histórias, e de arte, onde muita gente importante ainda morava.

        O menino Luiz não era um menino comum. Se tivesse sido, estaríamos agora escrevendo aqui sobre ele? Se tivesse permanecido onde fora colocado, se tivesse aceitado seu destino, se tivesse se tornado um agricultor, um criador de gado, se tivesse namorado e se casado com a moça bonita que iria se tornar Rosinha, sua companheira de brincadeiras na rua, possivelmente não seria aqui lembrado, da maneira que está sendo.

        Se o Moisés e D. Minervina se preocupavam. O que ia ser do Luizinho? Por que aquele sonho no olhar? Aquelas febres? Pois sempre estava distraído, não os atendia direito, postergava as tarefas diárias. Já não era criança, daqui a pouco teria que assumir novas funções na roça, novas responsabilidades. E seo Moisés, um pouco carrancudo como todo bom italiano que se preze, ao ver o menino no caminho torto, passava-lhe suas carraspanas....

        Assim foi indo, até que um dia, numa desses desencontros com os pais, Luis tomou o rumo de Ouro Preto. Ele nos contou, muito tempo depois, que tinha dezesseis anos naquela época (conferir em entrevista publicada no Informativo Ouro Preto, em março de 1969, redigida por Maria do Carmo Correa, constante no blog).

        Era a primeira década do século XX. Eram novos os tempos. E lá se foi o menino, não sabemos bem como, se de uma carona aqui, outra acolá, se tomou alguma condução, se foi escondido, se estranhou o percurso, um tanto longo, com tantas curvas no caminho....

        E avistou o Itacolomi. E se admirou com aquele casario lindo, diferente, imponente. E caminhou por sobre as pontes de pedra, bebeu água de muito chafariz, tropicou nas pedras irregulares, avistou varandas e enormes portas e janelas, e muita gente pelas ruas, e muitas ladeiras.

        E se frustrou também um bocado. A cidade, que respirara ouro, que respirara luxo, por onde tantos heróis da liberdade caminharam, a musa inspiradora de tanta poesia e graça, não estava tão enfeitada e viçosa quanto esperava. Havia mais cinza que brancura em seus grandes muros, suas pedras se escondiam no verde do limo, as calçadas descuidadas, os grandes prédios públicos tristonhos.... Era um momento de decadência da cidade. E, se o rapaz esperava um grande acolhimento, Ouro Preto lhe mostrou – de pronto – mais dureza e frio do que aquela alma juvenil esperara encontrar. E veio a noite, e lhe restou a rua. E ficamos por aqui imaginando, com o coração um pouco apertado, o que passou pela mente daquele jovem filho de imigrantes, num mundo novo, imenso e desconhecido naqueles momentos primeiros.

        Ele mesmo falaria disso, trazendo de volta aquele tempo: “Aportei em Ouro Preto dia 21 de outubro de 1912. Vim fugido, pois meu pai não concordava com a minha vinda. Aqui cheguei no inverno, com apenas duzentos réis no bolso, sendo obrigado a dormir na rua e tomar café com os amigos eventuais”. (novamente de acordo com entrevista por ele concedida a Maria do Carmo Correa e publicada no Informativo Ouro Preto, em março de 1969, constante no blog).


* Os filhos de Luiz Marzano, Luiz Marzano Filho e Vinicio, em seus relatos, consideram que o pai teria chegado a Ouro Preto antes de 1912, quando teria perto de 14 anos de idade. É o que trazem consigo de memória.



                                                                


Ouro Preto, 16 de novembro de 1964. Arquivo Nacional. Fundo Correio da Manhã. BR.RJANRIO.PH.FOT.1925/39.