AO QUERIDO PAPAI
Existe.
Termino de receber uma carta dele. Interessante, só que agora encontra-se de
molho, nos seus 75 anos de existência, convalescendo-se da operação de úlcera.
Um homem que sempre vendeu saúde e agora vem dizer-me: sabe! meu coração é
excelente, os pulmões também, e a pressão nem se fale.
Fecho
os olhos e me encontro com ele, lá pelos anos de 1935 ou 36. Bebê como era,
avistei-o descendo pela rua, não rua, um largo naquela cidade, povoado de Entre
Rios, caminhava ao meu encontro carregando nos braços brancos, num cordão dois
peixes dourados.
Era
distração dos mineiros pescarem no rio lamacento aos domingos, esse francamente
não o conheço.
Comemorava-se
naquela ocasião as Bodas de Ouro do meu avô Moisés e avó Minervina e toda a
família reuniu-se. Há uma fotografia quando tempos atrás, lá em Venda Nova,
Vigário da Paróquia: Padre Matias mostrou-me a meninada junta, ele o Padre: um
guri levado, fabricando assobios de barro.
Passou
por nós crianças que ao lado das enxurradas, que a forte chuva entregou ao
despedir-se, e toda turma com os pés nas águas lambuzentas, ajuntávamos barro
para os assobios em forma de pássaros. Nesse povoado ele nasceu. Hoje por certo
a cidade reluz, com certeza em vistas das novas instalações da luz moderna.
A
avenida que outrora conjugava-se em carvalhos deve andar lisa e asfaltadazinha,
ou pelo menos adornada. O casarão, segundo ouvi dizer, não saiu do lugar; sou
capaz de encontrá-lo caso fosse vê-lo.
Nessa
ocasião me envolveram de vestidinhos novos e meu faceiro pai me carregava e
vaidoso mostrava a todos o meu sorriso e a covinha no canto da boca. Noutras
horas o vejo com o Saxofone ou a Clarineta nos lábios em sopros alegres e ritmo
ligeiro. Corríamos para vê-lo tocar.
Das
festas da Bôda mal posso informar.
Ainda
garota prestava atenção nas peraltices das crianças da minha idade, somente com
um pormenor que ao ouvir o som do Saxofone, ia correndo ao encalço de Papai e
das Músicas.
Hoje
ele está de molho. Lamento que os anos modifiquem até maravilhas. Sei que não
pode tocar e isso nos dói: a mim e a ele principalmente.
Noutras
rodas, quando crescidinha, ficava ao seu lado ouvindo, ouvindo cousa alguma,
sou presunçosa quem só quem era eu para ouvir, presenciando as mímicas, no caso
então dele ao narrar para os amigos e pessoas da família as suas façanhas,
anedotas e piadas.
Criança
e minhas atenções voltavam-se para ele, quer nos Carnavais, quando no meio dos
Blocos de camisa de lamê azulão e calça azul-marinho “Aurora” movimentava a sua
Clarineta e apitos, custeando minutos e eram arremessados aos ouvidos dos
Ouropretanos.
Nas
Paradas Cívicas, comandando a Banda, nos coros das Igrejas de Ouro Preto e nos
municípios vizinhos. Acompanhava-o posso testemunhar.
Lá
no Alto da Cruz, Santa Efigênia, lá nas Cabeças, S. B. Jesus de Matozinhos,
mesmo no morro de S. Sebastião, S. João, Santana.
Festa
atrás de Festa e ele Maestrando sempre sorrindo, esquentando com uma Pituzinha
no inverno marchando como bom soldado, bom patriota, bom filho da terra.
Não
é caso para rir, mas hoje ele se encontra de “molho”.
Fui
crescendo, e junto, minha admiração por ele e também afeto.
Toda
emoção e comoção me envaidecia ao vê-lo tocando: quantas compenetrado, outras
sirigaito e gaiato.
Quando
nas Procissões Religiosas a frente me encontrava vestida de Anjo podia olhar
para trás e acenar para ele. Lá se encontrava com a Bandinha. Quantas
Composições de sua Autoria! Quantas.
Os
versos de Professoras e Poetas chegavam às suas mãos para que ele fizesse as
palavras estrilarem em contralto, soprano e em quantos sons existem.
Lembro-me
que uma noite acordei e vi movimento pela casa. O que seria? De pés no chão fui
caminhando devagarinho e curiosa. Calculem! A pobre da minha Mãe servindo
cafezinho para os seresteiros da noite e da madrugada. Lógico que ela já havia
escutado a serenata e todos os melados do Músico. Entendia os sintomas daquele
coração apaixonado, eu que o diga.
Os
acordes daquele Saxofone nunca me enganaram, e os chorinhos da Clarineta, muito
menos.
Evidente:
Desse amor, dessas serenatas, 21 rebentos, já pensaram? Fora os arranjos e os
ensaios.
Não
estou aqui para pilheriar, mas recordá-lo, recordar o Saxofonista querido de
muitos, de todos, que apenas não cativava com suas músicas, mas pelo coração
excelente, o mesmo coração de ontem e de hoje.
Peço
a Deus confortá-lo, que não deixe que no seu âmago crie a angústia. Para quem
viveu alerta ao trabalho, para quem quis e quer viver: criando e agora
sentir-se de “molho”.
Querido
Pai, não há de ser nada – o importante é que o senhor existe e nós o amamos
muito.
Itália
Marzano de O. Souza
Três Corações - 11/09/1972
(Texto digitado a partir do
original, escrito e datilografado por Itália, filha de Luiz Marzano, em 1972, pouco
menos de oito meses antes do falecimento do Maestro.)