Mostrando postagens com marcador Luiz Marzano Filho. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Luiz Marzano Filho. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 26 de abril de 2023

A família Trópia Marzano

             Os relatos ouvidos de nosso pai e de nossos tios nos fazem acreditar que a vida não foi muito fácil para aquela família numerosa.

As dificuldades financeiras sempre acompanharam Luiz Marzano em sua vida profissional; sua família mudava constantemente de casa, sempre que havia um aumento de aluguel ou que o proprietário decidia não mais alugar o imóvel.

Quanto a essa questão da moradia temos conosco duas narrativas muito interessantes, que aqui passamos a contar.

Em seu livro de memórias, Yone Tropia Bittencourt, sobrinha de Luiz Marzano e Maria José, lembra-se de quando aquela família morou no sobrado construído no local onde antes se situava a casa onde morou Tiradentes, hoje abrigando a Associação Comercial de Ouro Preto.  Ela se recorda: “Eu tinha horror de ir até lá, pois os meus irmãos diziam que, quando eu passasse no corredor, o Tiradentes iria me agarrar; por isso, quando eu chegava na porta, gritava por minha tia e subia a escada embalada” (Tavares, Ana Regina Bittencourt. Recordações – Yone Tropia Bittencourt. Belo Horizonte: 3i Editora, 2013).

A outra - uma das muitas histórias narradas pelo meu pai, Petronio  - dizia respeito a uma das mudanças que iriam empreender. Para realizá-la, os jovens moços da família fizeram-se valer de carrinhos de mão (de construção) com os quais carregavam os pertences. Após inúmeras viagens, que demandaram grande esforço por conta das ladeiras de Ouro Preto, sua mãe tomou a decisão de não querer mais se mudar para aquele novo local, fazendo-os retornar com tudo o que já havia sido transportado!... Segundo ele, a mãe teria ficado sabendo que uma outra mulher, suposta amante do marido, teria visitado a casa antes dela!

A partir de 1949, tendo Luiz Marzano Filho recebido seu pagamento pelo trabalho desenvolvido durante um ano na Serra do Navio, no Amapá (seu primeiro emprego após a formatura como engenheiro pela Escola de Minas de Ouro Preto), este adquiriu uma casa na Rua do Pilar e a cedeu para que seus pais e irmãos ali residissem. Ali permaneceram até 1962, quando Luiz Marzano Filho construiu uma residência à Rua Antonio de Albuquerque onde foram morar seu pai e seus irmãos mais novos, visto que sua mãe, Maria José Tropia, falecera recentemente.

Luiz Marzano talvez não fosse o exemplo de um marido exemplar e caseiro, “trabalhava o dia inteiro na sua alfaiataria com lojinha anexa; gostava de compartilhar momentos em ‘jazz-band’ com amigos e parentes”... e era seresteiro  (Luiz Marzano Filho em “O Velho Teimoso: Um sonho...o Éden III”, p.121-123).

A nós, netos, pouco era dado a conhecer sobre sua vida social e boêmia, mas hoje compreendemos melhor o porquê de algumas valsas por ele compostas serem dedicadas a outras mulheres.

Entretanto, sejam movidos pela compreensão ou pelo respeito, os filhos sempre se referiram a ele com palavras carinhosas. Luiz Marzano Filho, em suas três obras autobiográficas que muito nos auxiliam nessa reconstrução biográfica de Luiz Marzano, por diversos momentos reconhece no pai uma pessoa possuidora de “bom coração, elevado astral e de fácil meio de comunicação... que não era perfeito, mas nunca deixou de cuidar da família... com carinho, conselhos saudáveis e assistência completa ao lar” (em “O Velho Teimoso: Um Sonho... o Éden III, p.121, 122).

Em “Um Sonho... o Éden”, nas páginas 106 e 107, Luiz Marzano Filho nos fala também do pai amoroso e cuidadoso com a formação dos filhos, tendo inclusive recusado trabalho em Belo Horizonte, num momento de maior dificuldade financeira, pois acreditava que os filhos teriam maior oportunidade de estudo na cidade de Ouro Preto, o que veio a concretizar-se, com a formação de três de seus filhos em Engenharia pela então Escola de Minas de Ouro Preto.

Já a sua Maria era caseira. “viveu exclusivamente do lar para a igreja, da igreja para o lar” (Luiz Marzano Filho, idem, p. 105 e 106). Mantinha grande amizade e cumplicidade com sua cunhada Adelina, casada com Salvador Tropia. As duas eram companheiras também em seu modo de ser, reservadas – embora sempre com um sorriso no rosto – devotas à religião (frequentando diariamente a igreja) e a seus lares, onde se esmeravam no cuidado com os filhos e com a alimentação da família, preparando deliciosas macarronadas.

 “Lembro-me de minha mãe sempre ajoelhada, quer na igreja ou no seu quarto, a fazer suas orações, em tom baixinho, como se a pedir pela felicidade e saúde de todos os seus entes queridos e, ainda, talvez, que a boemia do seu querido esposo se abrandasse” (Luiz Marzano Filho,idem, p. 106)

Ambos, Luiz e Maria José, embora não tivessem mais que o “Ensino Primário” na época, procuraram incentivar os filhos a estudarem, o que na época não era muito comum às famílias. Luiz Marzano, com seu espírito livre e arrojado, gostava de ler, conversar e se informar com pessoas cultas,  e transmitir valores que prezava para seus filhos.

Formaram uma família feliz e unida. Hoje são muitos os descendentes de seus sete filhos que chegaram à idade adulta. Voltaremos a esse assunto em outra postagem.




Luiz Marzano em foto de 1929


                                                    

       


Maria José Tropia



                                                                                




Luiz Marzano, em foto de 1966, ao lado dos sete filhos, da esquerda para direita:
Vinicio, Petronio, Luiz, Lygia, Vicente, Maria da Conceição, Luiz Filho e Itália







Outras incursões pelas linhas da pauta

 

       Salvador Trópia, cunhado de Luiz Marzano, irmão de sua esposa Maria José Trópia Marzano, tinha um sonho: ter uma sala de cinema em Ouro Preto. Naquela cidade, desde os primeiros anos do século XX já funcionavam algumas salas de cinema (Cine Estrela do Sul e Cine Brasil).

Em 1926, Salvador vendeu seu armazém e adquiriu uma sala de propriedade do Sr. Joaquim de Oliveira, instalada provisoriamente no Teatro Municipal (Casa da Ópera). Posteriormente, comprou um prédio na então Rua Tiradentes, nº 17, reformou-o e adaptou-o para cinema. Nasceu ali o Cine Central. (Tavares, Ana Regina Bittencourt. Recordações – Yone Tropia Bittencourt. Belo Horizonte: 3i Editora, 2013, p. 107 e 108).

Até 1927, quando foi lançado, em Nova Iorque, o primeiro longa metragem sonoro, “O Cantor de Jazz” (The Jazz Singer), do diretor Alan Crosland, no qual as falas e o canto gravados em um disco de acetato eram sincronizados com a projeção das imagens do filme, o cinema era um espetáculo mudo.

Essa novidade demorou a chegar ao interior de Minas. E no Cine Central, como na maioria das salas de cinema, havia a cada sessão a execução de músicas, tocadas por alguns instrumentistas, que procuravam – modulando gêneros musicais e andamentos – acompanhar as cenas dos filmes que eram projetados nas telas, tornando a experiência do cinema mais completa.

Vinício Marzano nos relata que Luiz Marzano, juntamente com seus cunhados Salvador, José e Joãozinho Trópia, e sobrinhas,filhas de Salvador (Rosa, Eunice e Geralda) tocava na orquestra do cinema, pelo menos até o ano de 1929.

Aprimorando cada vez mais sua técnica na clarineta e saxofone, além de seu conhecimento geral em termos musicais, Luiz Marzano – além da atividade nas bandas, às quais nos referimos anteriormente – fazia igualmente parte de conjuntos musicais que tocavam por ocasião de festas religiosas em diversas igrejas de Ouro Preto.

Por outro lado, seu espírito livre e arrojado o fez também participar de conjuntos de “Jazz-band”, tocando em festas, bailes sociais e carnavalescos. Em postagem realizada recentemente (28 de agosto de 2018) em página de rede social do Festival “Tudo é Jazz” (disponível em https://www.facebook.com/profile/100067515433171/search/?q=Luiz%20Marzano), Luiz Marzano é citado como um dos músicos que constituíram o grupo de Jazz-Band Vila Rica, em 1959.

Entretanto, há registros anteriores de sua participação em diversas bandas que animavam bailes e carnavais ouropretanos, já a partir da década de 1930, sejam na Associação Comercial, no Centro Acadêmico da Escola de Minas de Ouro Preto, no Clube Quinze de Novembro, ou no Clube dos Lacaios. Uma fotografia da banda “Paulo e seu Ritmo”, tradicional em Ouro Preto por esses anos, mostra Luiz Marzano como um de seus integrantes.






Luiz Marzano Filho, em seu livro “Um Sonho... o Éden”, p. 108, cita ainda a participação do pai no conjunto “Marinheiros do Ar-Marinho” (fazendo menção à sua profissão como alfaiate) até seus últimos anos de atividade profissional. Com o pai, chegaram a tocar alguns de seus filhos, inclusive Petrônio, em instrumentos de percussão. Vários de seus netos se recordam de vê-lo no palco, animando o baile, enquanto dançavam nos clubes ouropretanos.

Para além dos bailes, Luiz Marzano tinha uma paixão pelas tradicionais serenatas. Até hoje é lembrado por alguns ouropretanos como seresteiro, ao lado de companheiros como Zé Murta, Lamparina, Joaquim de Brito, Sô Gê e, inclusive, de um de seus filhos, Vicente, que se mudou ainda jovem para Belo Horizonte. (segundo relato de Vinicio Marzano, outro de seus filhos). Luiz Marzano Filho nos relata que seu pai, com bom humor, dizia que gostava de tocar nas partes mais altas da cidade, para que toda a população ouropretana o pudesse ouvir. (Luiz Marzano Filho em seu livro: “Um Sonho... o Éden”, p. 109)

Dos sete filhos de Luiz Marzano e Maria José Tropia que chegaram à idade adulta, Vicente Marzano - apesar de ter aprendido o ofício de alfaiate - foi o único que se dedicou quase que integralmente à carreira musical.

Assim como seu pai, autodidata e apaixonado pela música, dedicou-se ao violino e exerceu sua atividade como músico inicialmente nas Rádios Guarani e Inconfidência, em Belo Horizonte, além de tocar em restaurantes e casas noturnas. Posteriormente, foi convidado para membro da Orquestra Sinfônica da Polícia Militar de Minas Gerais, quando de sua formação (1948), onde tocou viola e violino. (Homem, Fernando Pacífico As influências do Maestro Sebastião Vianna no cenário musical erudito de Belo Horizonte / Fernando Pacífico Homem. _Salvador, 2013, p. 131 e 173).

Luiz Marzano, “sempre procurando uma distração nas horas disponíveis”, segundo relato de seu filho Vinicio Marzano, também iniciou em 1948 a confecção de palhetas para instrumentos de sopro (clarineta e saxofone), utilizando-se da cana do reino que crescia no quintal de sua casa. Construiu uma pequena oficina neste mesmo quintal, onde as confeccionava, fornecendo-as para muitos músicos e comerciantes da região, inclusive a "Casa Marcatto", em Belo Horizonte, ainda existente, e na época referência como local para aquisição e conserto de instrumentos musicais variados.

 



Luiz Marzano tocando ao lado de Silvio Caldas, José Benedito Neves (na ocasião prefeito de Ouro Preto) e Wilson Frade - julho de 1965




A história continua...

    Por causa destes feitos, aqui relatados, e muitos outros, Luiz Marzano foi ficando conhecido, particularmente na cidade de Ouro Preto e região. Conhecido e estimado. Tanto foi, tanto fez, que em 23 de outubro de 1967 o então prefeito de Ouro Preto, Genival Alves Ramalho, através da lei numero 194 dispôs sobre a concessão de título de cidadão ouropretano a Luiz Marzano. Assim, aquele jovem que deixou um dia sua terra natal, foi efetiva e publicamente acolhido na casa que um dia escolhera morar. O texto da lei é bonito, e traz em si uma forte marca democrática: “O povo do município de Ouro Preto, por meio dos seus representantes, decretou (...) conceder o título de Cidadão Honorário Ouropretano ao Sr. Luiz Marzano, natural de Entre Rios de Minas” 

    Luiz Marzano foi, na verdade, um homem que mereceu essa congratulação. Nele muitos reconheceram “o senso de honestidade; o respeito ao próximo independentemente do sexo, raça ou faixa etária; o amor ao trabalho; o espírito de solidariedade dentro de uma comunidade, e acima de tudo o amor ao país em que nascemos e fomos criados, que é o melhor país do mundo” (como descreveu Luiz Marzano Filho, em seu livro “Um Sonho... o Éden”, p. 110). Diríamos ainda mais: foi um homem com um olhar aguçado e voltado para o futuro, atento às notícias e novidades, bom companheiro na conversa (seja no bar, na boemia ou no seu balcão de trabalho), sensível em sua interpretação do mundo e amoroso com a vida e com os que lhe cruzaram o caminho. 

    Por essas razões, em 02 de maio de 1973, “Ouro Preto recebeu consternada a notícia do falecimento do mestre Luiz Marzano. E, com sua morte, calou-se a harmonia suave das noites enluaradas de Ouro Preto” (idem acima). Entretanto...Uma boa história nunca chega ao fim. E essa, a história de Luiz Marzano, não será diferente. Ainda mais com o auxílio carinhoso de Maria José Trópia. Sua descendência está aí para recontá-la, retomá-la e fazê-la continuar. 

    Por isso idealizamos neste abril de 2023, bem próximo à data que marca os 50 anos de falecimento de Luiz Marzano, um evento especial que reacenda sua história, trazendo à memória – não só dos familiares, mas de todos os ouro-pretanos e cidadãos do mundo – fatos de sua vida como alfaiate, músico, compositor e regente de banda. Este blog nasce no cerne dessa iniciativa. Além dessa breve biografia, compilamos aqui suas obras musicais, compartilhando suas composições (as que conseguimos, em nossa pesquisa e coleta, localizar) com o público interessado em conhecê-la e interpretá-la. Esperamos que gostem. 










Luiz Marzano rodeado por filhos e netos - Ouro Preto/1966




Logotipo do Evento "Luiz Marzano : Entrelinhas"
Criação: Tiago Silva e Santana