quinta-feira, 20 de julho de 2023

EVENTO "LUIZ MARZANO: ENTRELINHAS" - OURO PRETO - 29 e 30 de abril de 2023


Nos dias 29 e 30 de abril deste ano foi realizado na cidade de Ouro Preto o evento "Luiz Marzano: Entrelinhas".

Por ocasião dos 50 anos de falecimento de Luiz Marzano, ocorrido no dia 02 de maio de 1973, a iniciativa de propor esse evento partiu da compreensão da necessidade de contribuir para o resgate e a documentação da memória cultural e social da terra que é nossa, mobilizando a comunidade local para a importância da preservação do patrimônio, no caso imaterial, construído e deixado como herança por tantos ouropretanos que por aqui passaram ou viveram.

A programação contou com a participação de muitos membros da família Marzano: seus dois filhos Vinício e Lygia, muitos netos, bisnetos, tataranetos e amigos dos familiares.

No evento tivemos o lançamento deste blog, que tem por objetivo disponibilizar textos a respeito da biografia de Luiz Marzano e, mais importante, trazer ao público grande parte de suas composições musicais, digitalizadas e disponibilizadas, a fim de propor novas interpretações e releituras de sua obra original.

Também foi realizado um Sarau Comemorativo, com apresentação musical de algumas de suas composições, tocadas por membros da família Marzano e pelos integrantes da Banda do Rosário, que foi a principal parceira do evento.

No domingo, dia 30 de abril, pela manhã, houve um lindo cortejo pelas ruas centrais de Ouro Preto com a Banda do Rosário, passando pela Praça Tiradentes e terminando próximo a sede da banda, em frente a casa de uma das filhas do maestro Luiz Marzano, Maria da Conceição, a "tia Cocota", já falecida.

Neste vídeo temos um resumo dos principais momentos do evento. Espero que gostem!







               


domingo, 18 de junho de 2023

ALERTA OUROPRETANOS

Durante muito tempo minha mãe, Maria da Conceição, guardou um panfleto da campanha política que mostrava meu pai, Petrônio Marzano, como candidato a Prefeito de Ouro Preto. O ano era 1970. Acredito que esse panfleto se perdeu, mas me lembro bem dele.

Anos mais tarde, encontrei uma foto deste panfleto no livro "O Menino Travesso" escrito por meu tio Luiz Marzano Filho. 

Propaganda politica eleição municipal 1970
(Extraída de Filho, Luiz Marzano. O Menino Travesso: Um Sonho...o Éden II. 2008, p. 32)


Meu pai não ganhou a eleição daquele ano e nunca mais se candidatou a nenhum cargo político. Um ano depois mudou-se com a família, eu com 6 anos de idade, para Alumínio, interior de São Paulo, para trabalhar na CBA (Companhia Brasileira de Alumínio).

Meu avô, Luiz Marzano, segundo consta, foi o "promotor" dessa candidatura. Audacioso, sempre à frente de seu tempo e imbuído de ideais políticos, tinha como um de seus sonhos ver um dos filhos como prefeito da cidade que amava. Com certeza, muito animado com a candidatura do filho, resolveu dar uma contribuição para a campanha eleitoral e compôs esta pequena marcha "Alerta Ouropretanos".

Que pena que eu era  pequena e não consigo me lembrar dos acontecimentos daquela eleição, mas gostaria de ter estado lá, cantando e distribuindo panfletos para meu pai.

Segue o manuscrito da composição, com letra do meu avô também.





Link para acessar a partitura em pdf:

https://drive.google.com/file/d/1WXXE0Sqpz6z7ULYXhdENk8uai4lA7s8y/view?usp=sharing


Maria Virgínia Rietra Marzano



sábado, 27 de maio de 2023

DOR QUE MATA E DUAS MARIAS - VALSAS

Nesta postagem trazemos duas belas valsas: Dor que Mata e Duas Marias.

Em ambas temos as duas primeiras partes em modo menor e a terceira, mais alegre, em modo maior. As melodias são bonitas, fazem lembrar tempos antigos, trazem sossego e saudades.

Meu avô escreveu somente a melodia destas valsas. Os acordes foram colocados depois, assim como o acompanhamento na valsa Duas Marias.

Espero que vocês gostem! 






As partituras podem ser acessadas em formato pdf, através dos links:

Dor que Mata:
https://drive.google.com/file/d/1_0nlP3VcMjTjdw_NgR66S1xv5w_McyQ4/view?usp=share_link

Duas Marias:
https://drive.google.com/file/d/1NsjiY3W7XPUcMtObBmvKKDH8Jj4pKJdk/view?usp=share_link



 

segunda-feira, 15 de maio de 2023

SAMBAS

Em meio a tantas valsas, marchas e dobrados, encontrei dois sambas escritos por meu avô, Luiz Marzano: Vem Pescadores e Cara Bacana.

Estas melodias com certeza tinham letras, mas, infelizmente, não consegui encontrá-las. 

No evento realizado dia 29 de abril deste ano, meu primo, Marco Antônio Marzano Amaral, interpretou o samba Cara Bacana.


Seguem as partituras dos sambas. Apreciem!






As partituras também podem ser acessadas em arquivo pdf através dos links:

https://drive.google.com/file/d/14M-FBVwf6AVWw-ukOs7MCS1k-AmQ0exj/view?usp=share_link

https://drive.google.com/file/d/1KcHczAYz0sfSkeSdUv7ZlBaNfy6ZF_i_/view?usp=share_link


                                                                                           Maria Virgínia Rietra Marzano.


domingo, 30 de abril de 2023

Valsa - Zóca

    Uma das primeiras valsas que escrevi usando o programa Encore, de edição de partituras, foi Zóca. 

    Esta partitura foi xerocada de um original manuscrito por meu tio Vinício. 

    A valsa tem três partes, sendo as duas primeiras em ré menor. A terceira parte, um dueto, está em modo maior. Procurei copiar todos os elementos da mesma forma que estão escritos: as ligaduras, os sinais, os ritornelos e os acentos. 

    O acompanhamento para piano não existia. Ousei, então, escrevê-lo. Para isso, verifiquei a forma como foi escrito o acompanhamento das músicas que foram publicadas e procurei seguir os mesmos padrões de harmonia, baixos e acordes.

    Segue a partitura. Espero que gostem! 




 




Esta partitura também pode ser acessada em arquivo pdf no endereço:
https://drive.google.com/file/d/1pevqR2AJGJdgLGUmhApE6qypwY3wqT-D/view?usp=share_link

Composições publicadas pela editora Irmãos Vitale

        Muitas composições de Luiz Marzano foram publicadas pela editora Irmãos Vitale em São Paulo.
        Alguns de seus familiares guardam as poucas cópias que restaram. 
        Entre elas estão:
        - "Miss" Ouro Preto - Marcha
        - Lágrimas no Deserto - Valsa
        - Diva - Valsa
        - Coração que Dorme - Valsa
        - Bandeira da Inconfidência - Hino
        - Despedida de Pierrot - Marcha Carnavalesca
     Como citado na postagem "Luiz Marzano e as linhas da pauta", a valsa Coração que Dorme foi sua música mais conhecida e divulgada.

       Disponibilizamos a seguir as partituras em arquivo imagem. Elas poderão ser acessadas também através dos links do Google Drive. 


"Miss" Ouro Preto



https://drive.google.com/file/d/1gpsHDzv3OIASRCttGbwU5tpix27iLXN-/view?usp=share_link


Lágrimas no Deserto




https://drive.google.com/file/d/1r79ZY0dTagj5tdV-TTsuRVqxKBJ7CPAS/view?usp=share_link


Diva



https://drive.google.com/file/d/1NARJfGIliQEu_kmPLSwmzD67pi7wvr6F/view?usp=share_link


Coração que Dorme

           


https://drive.google.com/file/d/1WcXnSTBT_4brp73iPRqoWXSrLWUKlAdV/view?usp=share_link


Bandeira da Inconfidência






https://drive.google.com/file/d/1J6C-AyJDAd_Xdl9I8QgcL_KVYpa2qXy3/view?usp=share_link


Despedida de Pierrot

        



https://drive.google.com/file/d/19Z5xmEj5bps96AoDD2Gh8iPlSMJ2cEO4/view?usp=share_link

SERENATA E SAUDADE

 As duas músicas Serenata e a Marcha Saudade são muito especiais. Tenho comigo os originais, manuscritos, escritos em grande folhas de papel pautado. Não me lembro como chegaram até mim...

Um dia, a muitos anos atrás, eu e minhas irmãs fomos até Ouro Preto. Minha tia Lygia, filha de Luiz Marzano, morava nos fundos da loja Marzano, no mesmo local onde meu avô manteve sua alfaiataria. 

A parte da frente da loja estava igual: grande armários envidraçados com suas peças de tecido, os balcões, também imensos e pesados, cheios de gavetas e essas, por sua vez, cheios de botões, fitas, zíperes, linhas, agulhas, uma infinidade de coisas que me encantavam. Nos fundos minha tia construiu uma casa para morar. Era pequena e esquisita para mim... Cheia de escadas estreitas que desciam para a sala e a cozinha, subiam para um quarto e uma espécie de sótão com lavanderia. Neste sótão se entrava embaixo do telhado. Neste lugar estavam várias partituras e livros de música. Um pouco abandonados, cheirando mofo. Ela nos deu esse material. Talvez, não me lembro bem, no meio deles estivessem estes manuscritos.

As duas músicas foram escritas com muito capricho. Meu avô usou sinais de dinâmica, escreveu a mão esquerda (o que não fez na maioria de suas valsas) e usou ornamentos. 

A Marcha Saudade é muito bonita. Quase toda tocada com oitavas nas duas mãos, tem duas partes: a primeira em modo menor e a segunda em modo maior. Não é uma peça difícil, mas exige uma atenção do pianista para destacar os contracantos da mão esquerda que dialogam com a melodia.

                              


A música Serenata é diferente de todas as composições do meu avô. É bastante elaborada, em compasso composto 6/8 na tonalidade de Sol Maior. A segunda parte está em modo menor. Na partitura meu avô indica os solos de instrumentos como flauta e violino. Sua maneira de grafar as ligaduras é muito precisa. 




É possível acessar as partituras em arquivo pdf nos links:

Serenata:

https://drive.google.com/file/d/1yS39d8UZmKwY_NJD6MFdtdAz4ERfV-V_/view?usp=share_link

Marcha - Saudade:

https://drive.google.com/file/d/19dqQ_OWZhie2Au5MhS90sv-bnFSnFgwh/view?usp=share_link


                                        Maria Virgínia Rietra Marzano

sábado, 29 de abril de 2023

Crônica "Papai" - por Itália Marzano de Oliveira Souza




            AO QUERIDO PAPAI

 

Existe. Termino de receber uma carta dele. Interessante, só que agora encontra-se de molho, nos seus 75 anos de existência, convalescendo-se da operação de úlcera. Um homem que sempre vendeu saúde e agora vem dizer-me: sabe! meu coração é excelente, os pulmões também, e a pressão nem se fale.

Fecho os olhos e me encontro com ele, lá pelos anos de 1935 ou 36. Bebê como era, avistei-o descendo pela rua, não rua, um largo naquela cidade, povoado de Entre Rios, caminhava ao meu encontro carregando nos braços brancos, num cordão dois peixes dourados.

Era distração dos mineiros pescarem no rio lamacento aos domingos, esse francamente não o conheço.

Comemorava-se naquela ocasião as Bodas de Ouro do meu avô Moisés e avó Minervina e toda a família reuniu-se. Há uma fotografia quando tempos atrás, lá em Venda Nova, Vigário da Paróquia: Padre Matias mostrou-me a meninada junta, ele o Padre: um guri levado, fabricando assobios de barro.

Passou por nós crianças que ao lado das enxurradas, que a forte chuva entregou ao despedir-se, e toda turma com os pés nas águas lambuzentas, ajuntávamos barro para os assobios em forma de pássaros. Nesse povoado ele nasceu. Hoje por certo a cidade reluz, com certeza em vistas das novas instalações da luz moderna.

A avenida que outrora conjugava-se em carvalhos deve andar lisa e asfaltadazinha, ou pelo menos adornada. O casarão, segundo ouvi dizer, não saiu do lugar; sou capaz de encontrá-lo caso fosse vê-lo.

Nessa ocasião me envolveram de vestidinhos novos e meu faceiro pai me carregava e vaidoso mostrava a todos o meu sorriso e a covinha no canto da boca. Noutras horas o vejo com o Saxofone ou a Clarineta nos lábios em sopros alegres e ritmo ligeiro. Corríamos para vê-lo tocar.

Das festas da Bôda mal posso informar.

Ainda garota prestava atenção nas peraltices das crianças da minha idade, somente com um pormenor que ao ouvir o som do Saxofone, ia correndo ao encalço de Papai e das Músicas.

Hoje ele está de molho. Lamento que os anos modifiquem até maravilhas. Sei que não pode tocar e isso nos dói: a mim e a ele principalmente.

Noutras rodas, quando crescidinha, ficava ao seu lado ouvindo, ouvindo cousa alguma, sou presunçosa quem só quem era eu para ouvir, presenciando as mímicas, no caso então dele ao narrar para os amigos e pessoas da família as suas façanhas, anedotas e piadas.

Criança e minhas atenções voltavam-se para ele, quer nos Carnavais, quando no meio dos Blocos de camisa de lamê azulão e calça azul-marinho “Aurora” movimentava a sua Clarineta e apitos, custeando minutos e eram arremessados aos ouvidos dos Ouropretanos.

Nas Paradas Cívicas, comandando a Banda, nos coros das Igrejas de Ouro Preto e nos municípios vizinhos. Acompanhava-o posso testemunhar.

Lá no Alto da Cruz, Santa Efigênia, lá nas Cabeças, S. B. Jesus de Matozinhos, mesmo no morro de S. Sebastião, S. João, Santana.

Festa atrás de Festa e ele Maestrando sempre sorrindo, esquentando com uma Pituzinha no inverno marchando como bom soldado, bom patriota, bom filho da terra.

Não é caso para rir, mas hoje ele se encontra de “molho”.

Fui crescendo, e junto, minha admiração por ele e também afeto.

Toda emoção e comoção me envaidecia ao vê-lo tocando: quantas compenetrado, outras sirigaito e gaiato.

Quando nas Procissões Religiosas a frente me encontrava vestida de Anjo podia olhar para trás e acenar para ele. Lá se encontrava com a Bandinha. Quantas Composições de sua Autoria! Quantas.

Os versos de Professoras e Poetas chegavam às suas mãos para que ele fizesse as palavras estrilarem em contralto, soprano e em quantos sons existem.

Lembro-me que uma noite acordei e vi movimento pela casa. O que seria? De pés no chão fui caminhando devagarinho e curiosa. Calculem! A pobre da minha Mãe servindo cafezinho para os seresteiros da noite e da madrugada. Lógico que ela já havia escutado a serenata e todos os melados do Músico. Entendia os sintomas daquele coração apaixonado, eu que o diga.

Os acordes daquele Saxofone nunca me enganaram, e os chorinhos da Clarineta, muito menos.

Evidente: Desse amor, dessas serenatas, 21 rebentos, já pensaram? Fora os arranjos e os ensaios.

Não estou aqui para pilheriar, mas recordá-lo, recordar o Saxofonista querido de muitos, de todos, que apenas não cativava com suas músicas, mas pelo coração excelente, o mesmo coração de ontem e de hoje.

Peço a Deus confortá-lo, que não deixe que no seu âmago crie a angústia. Para quem viveu alerta ao trabalho, para quem quis e quer viver: criando e agora sentir-se de “molho”.

Querido Pai, não há de ser nada – o importante é que o senhor existe e nós o amamos muito.

 

 

                                                                       Itália Marzano de O. Souza

                                                                       Três Corações   -   11/09/1972

 

(Texto digitado a partir do original, escrito e datilografado por Itália, filha de Luiz Marzano, em 1972, pouco menos de oito meses antes do falecimento do Maestro.) 








 

Lembranças do meu pai Luiz - filha Lygia Marzano Pereira

 

Papai (Luiz Marzano) ensinou o corte de alfaiate (técnicas de alfaiataria) para vários alfaiates de Belo Horizonte.

Improvisou uma casinha de madeira na pequena área (de sua casa) que dava para o quarto dele, onde ficava horas e horas em pé, fazendo palhetas (para instrumentos de sopro): as mais largas para saxofone e as mais estreitas para clarineta. Consertou várias caixas de palhetas que lhe foram confiadas pela casa Marcatto*, de Belo Horizonte, e não cobrou nada por isso.

Um fato interessante que achei na vida de papai, foi que ele se matriculou (certa ocasião) no Festival de Inverno (de Ouro Preto), na aula de música.

Eu estranhei, por ele ser músico. Mas o professor ficou entusiasmado com ele e falou que ele não era aluno e, sim, um professor. No fim do curso, o professor o presenteou com um livro de Harmonia.

Durante o Festival, ele foi convidado a tocar clarineta junto à Orquestra Sinfônica de Minas Gerais, em Viçosa,no lugar de um clarinetista que havia faltado. Ele ficou maravilhado e mesmo emocionado ao tocar com aquela turma de músicos, assim ele me falou...

Outro fato importante também foi que (a seleção para) o Hino a Nossa Senhora do Pilar foi disputada por vários autores. Dom Helvécio (Gomes de Oliveira), arcebispo de Mariana (por ocasião dessa seleção), ouviu (os hinos) sem saber os nomes dos autores e aprovou o hino de papai. Só depois é que o arcebispo ficou sabendo que o autor era papai (Luiz Marzano).

Foi ele também quem compôs a música de despedida do mês de Maria para a coroação de Nossa Senhora, para ser cantado pelos anjinhos no último dia da coroação. Um dos versos desse hino era: “Adeus, ó Matutina Stela, vamos chorando de emoção, levando a Vossa imagem bela, dentro do  nosso coração”... Então o côro cantava: “Ó que imensa saudade, rouba a nossa alegria, cantando o eterno adeus, adeus, adeus, Maria...” Tem outros versos, é muito bonita (a música).

(Papai) participava das novenas, tocando clarineta: novenas de Santa Efigênia, Nossa Senhora das Mercês, Bom Jesus e outras igrejas.

Por ocasião do Carnaval, tocava saxofone.

Escreveu músicas para a Banda tocar: (lembro-me) do José Ovídio Fortes e Luiz Marzano Filho (dobrados).

 

                                                                                  Lygia Marzano Pereira   (filha)

 

Observação:

Este depoimento foi colhido através de duas fontes: texto redigido pela autora e áudio (gravação realizada por Virgínia Amaral de Santana, em 28/02/2023 e nos enviado por Whatsapp). Fizemos apenas a digitação do que recebemos e, quando julgamos necessário e para adequação da linguagem falada à escrita,  acrescentamos algumas palavras, colocadas entre parênteses. (Maria Cristina Rietra Marzano)

*A Casa Marcatto, loja de instrumentos musicais existente até o momento atual em Belo Horizonte, iniciou sua trajetória quando um imigrante italiano, Rugero Marcatto, estabeleceu-se naquela cidade, após ter trabalhado em uma fábrica de instrumentos musicais de renome em São Paulo, em 1935. No início de sua atividade funcionava como oficina especializada em conserto de instrumentos de sopro.


                                                                                

Após o falecimento de Luiz Marzano, Lygia Marzano deu continuidade aos negócios do pai, mantendo uma loja no último endereço da antiga alfaiataria, à Rua São José, 83, em Ouro Preto.

Homenagem ao meu avô Luiz Marzano - neta Virgínia Amaral de Santana


Quanta emoção sinto hoje nesta oportunidade de homenagear o meu querido avô Luiz Marzano.

Sou a quarta neta e tive a alegria de conviver com ele até os meus 25 anos de idade, quando ele nos deixou, porém, sua presença sempre continuou e continua viva em minhas recordações.

Tinha o semblante sempre sereno e não me recordo de vê-lo carrancudo em nenhum momento. Até mesmo nos momentos em que já estava doente e não tinha muito mais tempo de vida, conseguia transmitir serenidade.

Nesta ocasião, eu tinha por costume levar para ele de lanche um copinho de iogurte que ele tomava lentamente se deliciando e sempre reclamava que era tão bom dizendo: “pena que é pouco”.

Elogiava também as brevidades que de tempos em tempos eu fazia especialmente para ele.

Uma lembrança muito alegre da minha infância é que nos carnavais, quando eu ia ao clube para as matinês, ele sempre estava lá tocando, todo animado. E depois, na juventude, quando eu já frequentava os bailes da noite, ele também estava lá abrilhantando nosso carnaval, sempre vibrante.

Tinha no seu sangue italiano um traço afetuoso, e com seu exemplo sempre nos ensinava a “falar com doçura”.

Um fato curioso que ele deve ter aprendido pelas andanças por Ouro Preto: me ensinou a subir as ladeiras da nossa terra de forma transversal, e dizia que assim faziam os burros, para cansar menos e seguir sem interrupção. Eu continuo fazendo isto, pois em Lafaiete há muitas ladeiras e sempre me vem novamente a lembrança carinhosa dele, quando estou subindo alguma.

Sempre quando estávamos almoçando em família ele gostava de contar piadas. Ele era daqueles que já ria muito no início da piada, ria até de chorar, porém as piadas eram muito sem graça. E eu ria, mas era das risadas dele.

Vovô não tinha muito estudo. Casou-se muito jovem e logo formou uma família numerosa. Porém gostava de ler o jornal diariamente, tinha uma inteligência e uma sensibilidade muito apuradas. Tinha uma bonita caligrafia e conversava com muita desenvoltura, dando notícias do que acontecia no mundo.

Quando eu fiz 15 anos ganhei da querida dona Risalva Kassis um caderno para anotar recordações. Guardo até hoje com carinho esse caderno. Foram poucos parentes e amigos que escreveram uma mensagem neste caderno. Um deles foi o vovô, que carinhosamente escreveu-me um versinho que compartilho com vocês:

“Virgínia minha querida neta,

Vovô te tem grande admiração;

Diria melhor se fosse um poeta,

Mas vovô fala a voz do coração!."


                                                                        


                                                                     Virgínia Amaral de Santana, Dez/2022

Lembranças do meu avô Luiz - neta Maria Virgínia



 

Quando meu avô, Luiz Marzano, faleceu eu era uma menina. Devia ter 7 anos e só guardei algumas lembranças dele.

Sua alfaiataria ficava na rua São José, em Ouro Preto. Era lá que moravam também os dois manequins do meu avô: o Gordo e o Magro. Eles enfeitavam a loja e atraiam muitos turistas e curiosos.

Meu avô, que nasceu em Entre Rios de Minas em 1896, veio ainda jovem para Ouro Preto em 1912 e, desde então, começou a trabalhar como ajudante de alfaiate, até ter sua própria alfaiataria.

Me lembro bem da loja, pois minha tia Lígia, após a morte do pai, continuou a vender tecidos, armarinhos e outras confecções por muito tempo. Era um dos meus lugares preferidos quando ia de férias para Ouro Preto. Grandes armários com portas envidraçadas, gavetas e prateleiras, que sempre mostravam novidades. Lá eu conheci o giz de alfaiate, botões, zíperes, agulhas de vários tamanhos, linhas de costura, aprendi a medir tecido e a mexer na antiga máquina registradora.

De lá saíamos para ir até o bar da esquina comprar chicletes e balas.

Sua casa era bem grande. A entrada era como uma garagem, sem carro. Não lembro do meu avô ter carro ou dirigir, mas me lembro muito bem de vê-lo chorando, já doente, quando fomos nos despedir dele quando nos mudamos para Corumbá. Devia ser início do ano de 1971. Meu pai ia trabalhar lá e fomos todos: mamãe, eu, Cristina e Regina também. Minha irmã, Luísa, mais nova não tinha nascido ainda.

Foi lá, naquele casarão, que um dia entrei no seu quarto e me lembro que ele nos pediu para sair, pois estava com dor naquela hora. Meu avô deve ter sofrido muito. Ele teve câncer e naquela época não existia tratamento como hoje.

Na parte de cima do sobrado, havia um terraço. Neste terraço um barracão, parece que feito de madeira. Lá ele fazia as palhetas de bambu para seus instrumentos de sopro e para a banda também.

São poucas lembranças. Meu pai não falava muito do meu avô. Que pena, não tive curiosidade de perguntar para ele (meu pai faleceu em 1990).  Lembro também do dia que ligaram avisando da sua morte. Foi em 1973. Nós morávamos em Alumínio - SP, meu pai estava trabalhando na CBA.

Ficamos pouco em Corumbá. Meu pai ficou doente lá e tivemos que voltar. Foi quando ele ficou com diabete. Voltamos para Ouro Preto no final de setembro de 1971 e logo no início de 1972 nos mudamos para Alumínio.

A música sempre esteve presente na nossa família. Os filhos e netos do meu avô, Luiz, cultivaram o apreço pela música em suas casas e festas. Até hoje, quando acontecem as reuniões em família, sempre tem alguém cantando e tocando instrumentos musicais.

Meu pai, Petrônio, ouvia muita música. Ele tocou bateria quando jovem nos bailes em Ouro Preto. Depois de casado costumava tocar sua escaleta, acompanhando os discos de Glenn Miller, Ray Conniff e outros. Em 1976 comprou nosso piano, que está comigo até hoje. Neste piano eu e minhas irmãs tocamos músicas de autoria do meu avô.

Agora com 57 anos de idade, senti necessidade de preservar a obra de meu avô. Partituras e manuscritos correm o risco de se perder, se deteriorar com o tempo. Também acredito que através deste blog, muitas outras pessoas poderão conhecer suas composições e se encantar com suas linhas melódicas, tão bem cuidadas e bonitas.

Ao meu avô, Luiz Marzano, minha gratidão, respeito e carinho.

                                                                                                

                                                                                        Maria Virgínia Rietra Marzano

                                                                              

Luiz Marzano com as netas Maria Virgínia e sua irmã Maria Cristina, 1967


 


    

Lembranças do meu avô Luiz - neta Maria Cristina

 

            Como meu avô, guardo dele poucas lembranças. Mesmo acreditando que devo tê-lo encontrado inúmeras vezes, pois morei em Ouro Preto nos meus primeiros cinco anos e o vejo hoje em algumas fotos comigo e com meus pais, minhas lembranças mais marcantes se resumem a duas.

Na primeira, ele está em sua casa, e ali tem muita gente, e todos estão atentos à pequena tela da televisão em branco em preto. Muito mais tarde vim a compreender que assistiam à final da Copa do Mundo de 1970. Em campo, os dois times do coração de Luiz Marzano: Brasil e Itália. Terminado o jogo, em meio a muita euforia e abraços entre os presentes, vi meu avô chorando. Meu avô, Luiz Marzano, foi o primeiro homem que eu vi chorar. Eu me lembro que fiquei muito surpresa com esse fato, quase incrédula. Sei lá, coisas de menina, numa época em que ainda era mais presente do que hoje essas tais marcas ou “características” que foram construídas para cada gênero.

A segunda é uma lembrança repetitiva. Talvez eu já fosse um pouco mais velha, provavelmente já tínhamos deixado Ouro Preto. Mas, era invariável: todas as vezes que papai nos levava à sua alfaiataria na rua São José, ele nos abraçava muito contente, fazia festa. E logo saía com a gente para comprar bala. O destino estava a alguns passos, na mesma calçada, um pouco à frente: era o bar do Peret (este, o bar, resiste até hoje. O dono, Roberto Peret, deixou-nos no final de 2022). Ganhar essas balas era a coisa mais esperada de nossos encontros com vovô.

Assim, meu avô me marcou pela sensibilidade e pela doçura. De um jeito que, muito provavelmente, nunca soube.

                                                                        Maria Cristina Rietra Marzano


Luiz Marzano com as netas Maria Virgínia, Maria Cristina e Maria Regina (1970)

Uma Lembrança, Uma Impressão - neta Luisiana Marzano

 


 

 

Era menina, quando nosso avô Luiz Marzano faleceu. A LEMBRANÇA é do meu pai fazendo o comunicado do seu falecimento e eu ouvindo, enquanto subia as escadas do quintal para a cozinha.

Entrei em casa, fui pro quarto e fiquei com a IMPRESSÃO, que não iria mais a Ouro Preto (nem de passagem para Guarapari).

Entre LEMBRANÇAS E IMPRESSÕES, creio que as próximas vão também trazer boas e divertidas recordações do nosso avô, também para vocês:

·         Aquela linda escada colorida em tons pastéis da sua moradia. A divisória era na vertical, unindo a terra ao céu... quem nunca dançou, descendo aquelas escadas, imaginando cenas de Fred Astaire...

·         O dia de sábado e a hora do seu banho: Era um verdadeiro ritual para acompanhar calada e observar os “mínimos detalhes ...”

·         Suas frases memoráveis: Para as netas, sempre tinha um cumprimento, no mínimo perturbador: “Cadê as pererecas do vovô”? Isso me causava um certo desconforto e timidez de menina... rsrsrs

·         Sua filosofia de vida (segundo relato do meu pai Luiz Marzano): “Marzano é assim, você joga na parede: se colar é artista, se cair é ladrão.” Meu pai sempre justificava comigo que chegou a tocar bateria, mas os estudos o impossibilitou de dedicar a música. Vai saber... rsrsrs

 

Com o pouco que tenho de LEMBRANÇA e IMPRESSÃO do nosso avô (título este dado pela prima Cristina para a minha crônica), me sinto feliz e prestigiada por ser a “perereca do vovô” e por ser artista, pois minha profissão é Professora de Arte. Parece que passei no teste. Para os demais ainda há tempo... Nosso avô nos espera no Juízo Final... rsrsrs

 

Um beijo grande para todos os meus parentes,


Luisiana Marzano

13/02/2023



Luiz Marzano com filhos e netos em confraternização familiar.

Luisiana é a menina que está mais à frente, à direita da foto, uma das mãos segurando a outra.


quarta-feira, 26 de abril de 2023

INTRODUÇÃO

 

                        Numa época em que a noção de memória se transferiu para o domínio dos “chips” de silício, dos computadores e das histórias de ficção científica..., os críticos lamentam rotineiramente a entropia da memória histórica, definindo a amnésia como perigoso vírus cultural criado pelas novas tecnologias da mídia. (...) A rememoração dá forma aos nossos elos de ligação com o passado, e os modos de rememorar nos definem no presente. Como indivíduos e sociedades, precisamos do passado para construir e ancorar nossas identidades e alimentar uma visão de futuro. (HUYSSEN, Andreas. Seduzidos pela memória. Ed. Aeroplano, 2000, p. 67)



Há histórias que nunca foram contadas. De outras, sabemos parte. Outras ainda só iremos saber se formos costurando os retalhos que a memória de muitos traz, aos poucos, à claridade.

Essa história de agora, que começamos a contar, é feita de muitas histórias, de muitas memórias (e, lógico, re-desenhadas e re-inventadas por essas mesmas memórias). Talvez não seja de todo verdadeira, talvez muitos fatos estejam alterados, muitas datas equivocadas.

Essa é a história de um homem. Nem sabemos, ao certo, se foi um homem cuja história tenha alguma relevância ou importância de cunho social ou histórico. Se é uma história que mereça ser conhecida por muitos. Mas, para nós, que fazemos – de certa forma – parte da história desse homem, é uma história que merece ser contada. Nela encontramos um pouco de nossas verdades, nela reconhecemos alguns de nossos talentos e de nossos sonhos. Ela talvez explique algumas de nossas fraquezas. Ela nos une a um grupo, com particularidades, com uma identidade.  

Pois bem, é mesmo assim. Ao reconstruir a história de Luiz Marzano, muitas outras se fazem e se fizeram. Talvez tenhamos tempo para contá-las por aqui, talvez elas fiquem apenas em nossa memória. Com certeza elas contribuíram para o que estamos contando agora. É uma história construída por um grupo. E olha que tem gente por aqui que já não está nem mais entre nós, mas cujo trechinho da fala é de muito valor.

            Esperamos que gostem de ouvi-la.


                                                                        


Luiz Marzano em sua Alfaiataria Moderna com seus manequins
1968