sábado, 29 de abril de 2023

Crônica "Papai" - por Itália Marzano de Oliveira Souza




            AO QUERIDO PAPAI

 

Existe. Termino de receber uma carta dele. Interessante, só que agora encontra-se de molho, nos seus 75 anos de existência, convalescendo-se da operação de úlcera. Um homem que sempre vendeu saúde e agora vem dizer-me: sabe! meu coração é excelente, os pulmões também, e a pressão nem se fale.

Fecho os olhos e me encontro com ele, lá pelos anos de 1935 ou 36. Bebê como era, avistei-o descendo pela rua, não rua, um largo naquela cidade, povoado de Entre Rios, caminhava ao meu encontro carregando nos braços brancos, num cordão dois peixes dourados.

Era distração dos mineiros pescarem no rio lamacento aos domingos, esse francamente não o conheço.

Comemorava-se naquela ocasião as Bodas de Ouro do meu avô Moisés e avó Minervina e toda a família reuniu-se. Há uma fotografia quando tempos atrás, lá em Venda Nova, Vigário da Paróquia: Padre Matias mostrou-me a meninada junta, ele o Padre: um guri levado, fabricando assobios de barro.

Passou por nós crianças que ao lado das enxurradas, que a forte chuva entregou ao despedir-se, e toda turma com os pés nas águas lambuzentas, ajuntávamos barro para os assobios em forma de pássaros. Nesse povoado ele nasceu. Hoje por certo a cidade reluz, com certeza em vistas das novas instalações da luz moderna.

A avenida que outrora conjugava-se em carvalhos deve andar lisa e asfaltadazinha, ou pelo menos adornada. O casarão, segundo ouvi dizer, não saiu do lugar; sou capaz de encontrá-lo caso fosse vê-lo.

Nessa ocasião me envolveram de vestidinhos novos e meu faceiro pai me carregava e vaidoso mostrava a todos o meu sorriso e a covinha no canto da boca. Noutras horas o vejo com o Saxofone ou a Clarineta nos lábios em sopros alegres e ritmo ligeiro. Corríamos para vê-lo tocar.

Das festas da Bôda mal posso informar.

Ainda garota prestava atenção nas peraltices das crianças da minha idade, somente com um pormenor que ao ouvir o som do Saxofone, ia correndo ao encalço de Papai e das Músicas.

Hoje ele está de molho. Lamento que os anos modifiquem até maravilhas. Sei que não pode tocar e isso nos dói: a mim e a ele principalmente.

Noutras rodas, quando crescidinha, ficava ao seu lado ouvindo, ouvindo cousa alguma, sou presunçosa quem só quem era eu para ouvir, presenciando as mímicas, no caso então dele ao narrar para os amigos e pessoas da família as suas façanhas, anedotas e piadas.

Criança e minhas atenções voltavam-se para ele, quer nos Carnavais, quando no meio dos Blocos de camisa de lamê azulão e calça azul-marinho “Aurora” movimentava a sua Clarineta e apitos, custeando minutos e eram arremessados aos ouvidos dos Ouropretanos.

Nas Paradas Cívicas, comandando a Banda, nos coros das Igrejas de Ouro Preto e nos municípios vizinhos. Acompanhava-o posso testemunhar.

Lá no Alto da Cruz, Santa Efigênia, lá nas Cabeças, S. B. Jesus de Matozinhos, mesmo no morro de S. Sebastião, S. João, Santana.

Festa atrás de Festa e ele Maestrando sempre sorrindo, esquentando com uma Pituzinha no inverno marchando como bom soldado, bom patriota, bom filho da terra.

Não é caso para rir, mas hoje ele se encontra de “molho”.

Fui crescendo, e junto, minha admiração por ele e também afeto.

Toda emoção e comoção me envaidecia ao vê-lo tocando: quantas compenetrado, outras sirigaito e gaiato.

Quando nas Procissões Religiosas a frente me encontrava vestida de Anjo podia olhar para trás e acenar para ele. Lá se encontrava com a Bandinha. Quantas Composições de sua Autoria! Quantas.

Os versos de Professoras e Poetas chegavam às suas mãos para que ele fizesse as palavras estrilarem em contralto, soprano e em quantos sons existem.

Lembro-me que uma noite acordei e vi movimento pela casa. O que seria? De pés no chão fui caminhando devagarinho e curiosa. Calculem! A pobre da minha Mãe servindo cafezinho para os seresteiros da noite e da madrugada. Lógico que ela já havia escutado a serenata e todos os melados do Músico. Entendia os sintomas daquele coração apaixonado, eu que o diga.

Os acordes daquele Saxofone nunca me enganaram, e os chorinhos da Clarineta, muito menos.

Evidente: Desse amor, dessas serenatas, 21 rebentos, já pensaram? Fora os arranjos e os ensaios.

Não estou aqui para pilheriar, mas recordá-lo, recordar o Saxofonista querido de muitos, de todos, que apenas não cativava com suas músicas, mas pelo coração excelente, o mesmo coração de ontem e de hoje.

Peço a Deus confortá-lo, que não deixe que no seu âmago crie a angústia. Para quem viveu alerta ao trabalho, para quem quis e quer viver: criando e agora sentir-se de “molho”.

Querido Pai, não há de ser nada – o importante é que o senhor existe e nós o amamos muito.

 

 

                                                                       Itália Marzano de O. Souza

                                                                       Três Corações   -   11/09/1972

 

(Texto digitado a partir do original, escrito e datilografado por Itália, filha de Luiz Marzano, em 1972, pouco menos de oito meses antes do falecimento do Maestro.) 








 

Lembranças do meu pai Luiz - filha Lygia Marzano Pereira

 

Papai (Luiz Marzano) ensinou o corte de alfaiate (técnicas de alfaiataria) para vários alfaiates de Belo Horizonte.

Improvisou uma casinha de madeira na pequena área (de sua casa) que dava para o quarto dele, onde ficava horas e horas em pé, fazendo palhetas (para instrumentos de sopro): as mais largas para saxofone e as mais estreitas para clarineta. Consertou várias caixas de palhetas que lhe foram confiadas pela casa Marcatto*, de Belo Horizonte, e não cobrou nada por isso.

Um fato interessante que achei na vida de papai, foi que ele se matriculou (certa ocasião) no Festival de Inverno (de Ouro Preto), na aula de música.

Eu estranhei, por ele ser músico. Mas o professor ficou entusiasmado com ele e falou que ele não era aluno e, sim, um professor. No fim do curso, o professor o presenteou com um livro de Harmonia.

Durante o Festival, ele foi convidado a tocar clarineta junto à Orquestra Sinfônica de Minas Gerais, em Viçosa,no lugar de um clarinetista que havia faltado. Ele ficou maravilhado e mesmo emocionado ao tocar com aquela turma de músicos, assim ele me falou...

Outro fato importante também foi que (a seleção para) o Hino a Nossa Senhora do Pilar foi disputada por vários autores. Dom Helvécio (Gomes de Oliveira), arcebispo de Mariana (por ocasião dessa seleção), ouviu (os hinos) sem saber os nomes dos autores e aprovou o hino de papai. Só depois é que o arcebispo ficou sabendo que o autor era papai (Luiz Marzano).

Foi ele também quem compôs a música de despedida do mês de Maria para a coroação de Nossa Senhora, para ser cantado pelos anjinhos no último dia da coroação. Um dos versos desse hino era: “Adeus, ó Matutina Stela, vamos chorando de emoção, levando a Vossa imagem bela, dentro do  nosso coração”... Então o côro cantava: “Ó que imensa saudade, rouba a nossa alegria, cantando o eterno adeus, adeus, adeus, Maria...” Tem outros versos, é muito bonita (a música).

(Papai) participava das novenas, tocando clarineta: novenas de Santa Efigênia, Nossa Senhora das Mercês, Bom Jesus e outras igrejas.

Por ocasião do Carnaval, tocava saxofone.

Escreveu músicas para a Banda tocar: (lembro-me) do José Ovídio Fortes e Luiz Marzano Filho (dobrados).

 

                                                                                  Lygia Marzano Pereira   (filha)

 

Observação:

Este depoimento foi colhido através de duas fontes: texto redigido pela autora e áudio (gravação realizada por Virgínia Amaral de Santana, em 28/02/2023 e nos enviado por Whatsapp). Fizemos apenas a digitação do que recebemos e, quando julgamos necessário e para adequação da linguagem falada à escrita,  acrescentamos algumas palavras, colocadas entre parênteses. (Maria Cristina Rietra Marzano)

*A Casa Marcatto, loja de instrumentos musicais existente até o momento atual em Belo Horizonte, iniciou sua trajetória quando um imigrante italiano, Rugero Marcatto, estabeleceu-se naquela cidade, após ter trabalhado em uma fábrica de instrumentos musicais de renome em São Paulo, em 1935. No início de sua atividade funcionava como oficina especializada em conserto de instrumentos de sopro.


                                                                                

Após o falecimento de Luiz Marzano, Lygia Marzano deu continuidade aos negócios do pai, mantendo uma loja no último endereço da antiga alfaiataria, à Rua São José, 83, em Ouro Preto.

Homenagem ao meu avô Luiz Marzano - neta Virgínia Amaral de Santana


Quanta emoção sinto hoje nesta oportunidade de homenagear o meu querido avô Luiz Marzano.

Sou a quarta neta e tive a alegria de conviver com ele até os meus 25 anos de idade, quando ele nos deixou, porém, sua presença sempre continuou e continua viva em minhas recordações.

Tinha o semblante sempre sereno e não me recordo de vê-lo carrancudo em nenhum momento. Até mesmo nos momentos em que já estava doente e não tinha muito mais tempo de vida, conseguia transmitir serenidade.

Nesta ocasião, eu tinha por costume levar para ele de lanche um copinho de iogurte que ele tomava lentamente se deliciando e sempre reclamava que era tão bom dizendo: “pena que é pouco”.

Elogiava também as brevidades que de tempos em tempos eu fazia especialmente para ele.

Uma lembrança muito alegre da minha infância é que nos carnavais, quando eu ia ao clube para as matinês, ele sempre estava lá tocando, todo animado. E depois, na juventude, quando eu já frequentava os bailes da noite, ele também estava lá abrilhantando nosso carnaval, sempre vibrante.

Tinha no seu sangue italiano um traço afetuoso, e com seu exemplo sempre nos ensinava a “falar com doçura”.

Um fato curioso que ele deve ter aprendido pelas andanças por Ouro Preto: me ensinou a subir as ladeiras da nossa terra de forma transversal, e dizia que assim faziam os burros, para cansar menos e seguir sem interrupção. Eu continuo fazendo isto, pois em Lafaiete há muitas ladeiras e sempre me vem novamente a lembrança carinhosa dele, quando estou subindo alguma.

Sempre quando estávamos almoçando em família ele gostava de contar piadas. Ele era daqueles que já ria muito no início da piada, ria até de chorar, porém as piadas eram muito sem graça. E eu ria, mas era das risadas dele.

Vovô não tinha muito estudo. Casou-se muito jovem e logo formou uma família numerosa. Porém gostava de ler o jornal diariamente, tinha uma inteligência e uma sensibilidade muito apuradas. Tinha uma bonita caligrafia e conversava com muita desenvoltura, dando notícias do que acontecia no mundo.

Quando eu fiz 15 anos ganhei da querida dona Risalva Kassis um caderno para anotar recordações. Guardo até hoje com carinho esse caderno. Foram poucos parentes e amigos que escreveram uma mensagem neste caderno. Um deles foi o vovô, que carinhosamente escreveu-me um versinho que compartilho com vocês:

“Virgínia minha querida neta,

Vovô te tem grande admiração;

Diria melhor se fosse um poeta,

Mas vovô fala a voz do coração!."


                                                                        


                                                                     Virgínia Amaral de Santana, Dez/2022

Lembranças do meu avô Luiz - neta Maria Virgínia



 

Quando meu avô, Luiz Marzano, faleceu eu era uma menina. Devia ter 7 anos e só guardei algumas lembranças dele.

Sua alfaiataria ficava na rua São José, em Ouro Preto. Era lá que moravam também os dois manequins do meu avô: o Gordo e o Magro. Eles enfeitavam a loja e atraiam muitos turistas e curiosos.

Meu avô, que nasceu em Entre Rios de Minas em 1896, veio ainda jovem para Ouro Preto em 1912 e, desde então, começou a trabalhar como ajudante de alfaiate, até ter sua própria alfaiataria.

Me lembro bem da loja, pois minha tia Lígia, após a morte do pai, continuou a vender tecidos, armarinhos e outras confecções por muito tempo. Era um dos meus lugares preferidos quando ia de férias para Ouro Preto. Grandes armários com portas envidraçadas, gavetas e prateleiras, que sempre mostravam novidades. Lá eu conheci o giz de alfaiate, botões, zíperes, agulhas de vários tamanhos, linhas de costura, aprendi a medir tecido e a mexer na antiga máquina registradora.

De lá saíamos para ir até o bar da esquina comprar chicletes e balas.

Sua casa era bem grande. A entrada era como uma garagem, sem carro. Não lembro do meu avô ter carro ou dirigir, mas me lembro muito bem de vê-lo chorando, já doente, quando fomos nos despedir dele quando nos mudamos para Corumbá. Devia ser início do ano de 1971. Meu pai ia trabalhar lá e fomos todos: mamãe, eu, Cristina e Regina também. Minha irmã, Luísa, mais nova não tinha nascido ainda.

Foi lá, naquele casarão, que um dia entrei no seu quarto e me lembro que ele nos pediu para sair, pois estava com dor naquela hora. Meu avô deve ter sofrido muito. Ele teve câncer e naquela época não existia tratamento como hoje.

Na parte de cima do sobrado, havia um terraço. Neste terraço um barracão, parece que feito de madeira. Lá ele fazia as palhetas de bambu para seus instrumentos de sopro e para a banda também.

São poucas lembranças. Meu pai não falava muito do meu avô. Que pena, não tive curiosidade de perguntar para ele (meu pai faleceu em 1990).  Lembro também do dia que ligaram avisando da sua morte. Foi em 1973. Nós morávamos em Alumínio - SP, meu pai estava trabalhando na CBA.

Ficamos pouco em Corumbá. Meu pai ficou doente lá e tivemos que voltar. Foi quando ele ficou com diabete. Voltamos para Ouro Preto no final de setembro de 1971 e logo no início de 1972 nos mudamos para Alumínio.

A música sempre esteve presente na nossa família. Os filhos e netos do meu avô, Luiz, cultivaram o apreço pela música em suas casas e festas. Até hoje, quando acontecem as reuniões em família, sempre tem alguém cantando e tocando instrumentos musicais.

Meu pai, Petrônio, ouvia muita música. Ele tocou bateria quando jovem nos bailes em Ouro Preto. Depois de casado costumava tocar sua escaleta, acompanhando os discos de Glenn Miller, Ray Conniff e outros. Em 1976 comprou nosso piano, que está comigo até hoje. Neste piano eu e minhas irmãs tocamos músicas de autoria do meu avô.

Agora com 57 anos de idade, senti necessidade de preservar a obra de meu avô. Partituras e manuscritos correm o risco de se perder, se deteriorar com o tempo. Também acredito que através deste blog, muitas outras pessoas poderão conhecer suas composições e se encantar com suas linhas melódicas, tão bem cuidadas e bonitas.

Ao meu avô, Luiz Marzano, minha gratidão, respeito e carinho.

                                                                                                

                                                                                        Maria Virgínia Rietra Marzano

                                                                              

Luiz Marzano com as netas Maria Virgínia e sua irmã Maria Cristina, 1967


 


    

Lembranças do meu avô Luiz - neta Maria Cristina

 

            Como meu avô, guardo dele poucas lembranças. Mesmo acreditando que devo tê-lo encontrado inúmeras vezes, pois morei em Ouro Preto nos meus primeiros cinco anos e o vejo hoje em algumas fotos comigo e com meus pais, minhas lembranças mais marcantes se resumem a duas.

Na primeira, ele está em sua casa, e ali tem muita gente, e todos estão atentos à pequena tela da televisão em branco em preto. Muito mais tarde vim a compreender que assistiam à final da Copa do Mundo de 1970. Em campo, os dois times do coração de Luiz Marzano: Brasil e Itália. Terminado o jogo, em meio a muita euforia e abraços entre os presentes, vi meu avô chorando. Meu avô, Luiz Marzano, foi o primeiro homem que eu vi chorar. Eu me lembro que fiquei muito surpresa com esse fato, quase incrédula. Sei lá, coisas de menina, numa época em que ainda era mais presente do que hoje essas tais marcas ou “características” que foram construídas para cada gênero.

A segunda é uma lembrança repetitiva. Talvez eu já fosse um pouco mais velha, provavelmente já tínhamos deixado Ouro Preto. Mas, era invariável: todas as vezes que papai nos levava à sua alfaiataria na rua São José, ele nos abraçava muito contente, fazia festa. E logo saía com a gente para comprar bala. O destino estava a alguns passos, na mesma calçada, um pouco à frente: era o bar do Peret (este, o bar, resiste até hoje. O dono, Roberto Peret, deixou-nos no final de 2022). Ganhar essas balas era a coisa mais esperada de nossos encontros com vovô.

Assim, meu avô me marcou pela sensibilidade e pela doçura. De um jeito que, muito provavelmente, nunca soube.

                                                                        Maria Cristina Rietra Marzano


Luiz Marzano com as netas Maria Virgínia, Maria Cristina e Maria Regina (1970)

Uma Lembrança, Uma Impressão - neta Luisiana Marzano

 


 

 

Era menina, quando nosso avô Luiz Marzano faleceu. A LEMBRANÇA é do meu pai fazendo o comunicado do seu falecimento e eu ouvindo, enquanto subia as escadas do quintal para a cozinha.

Entrei em casa, fui pro quarto e fiquei com a IMPRESSÃO, que não iria mais a Ouro Preto (nem de passagem para Guarapari).

Entre LEMBRANÇAS E IMPRESSÕES, creio que as próximas vão também trazer boas e divertidas recordações do nosso avô, também para vocês:

·         Aquela linda escada colorida em tons pastéis da sua moradia. A divisória era na vertical, unindo a terra ao céu... quem nunca dançou, descendo aquelas escadas, imaginando cenas de Fred Astaire...

·         O dia de sábado e a hora do seu banho: Era um verdadeiro ritual para acompanhar calada e observar os “mínimos detalhes ...”

·         Suas frases memoráveis: Para as netas, sempre tinha um cumprimento, no mínimo perturbador: “Cadê as pererecas do vovô”? Isso me causava um certo desconforto e timidez de menina... rsrsrs

·         Sua filosofia de vida (segundo relato do meu pai Luiz Marzano): “Marzano é assim, você joga na parede: se colar é artista, se cair é ladrão.” Meu pai sempre justificava comigo que chegou a tocar bateria, mas os estudos o impossibilitou de dedicar a música. Vai saber... rsrsrs

 

Com o pouco que tenho de LEMBRANÇA e IMPRESSÃO do nosso avô (título este dado pela prima Cristina para a minha crônica), me sinto feliz e prestigiada por ser a “perereca do vovô” e por ser artista, pois minha profissão é Professora de Arte. Parece que passei no teste. Para os demais ainda há tempo... Nosso avô nos espera no Juízo Final... rsrsrs

 

Um beijo grande para todos os meus parentes,


Luisiana Marzano

13/02/2023



Luiz Marzano com filhos e netos em confraternização familiar.

Luisiana é a menina que está mais à frente, à direita da foto, uma das mãos segurando a outra.


quarta-feira, 26 de abril de 2023

INTRODUÇÃO

 

                        Numa época em que a noção de memória se transferiu para o domínio dos “chips” de silício, dos computadores e das histórias de ficção científica..., os críticos lamentam rotineiramente a entropia da memória histórica, definindo a amnésia como perigoso vírus cultural criado pelas novas tecnologias da mídia. (...) A rememoração dá forma aos nossos elos de ligação com o passado, e os modos de rememorar nos definem no presente. Como indivíduos e sociedades, precisamos do passado para construir e ancorar nossas identidades e alimentar uma visão de futuro. (HUYSSEN, Andreas. Seduzidos pela memória. Ed. Aeroplano, 2000, p. 67)



Há histórias que nunca foram contadas. De outras, sabemos parte. Outras ainda só iremos saber se formos costurando os retalhos que a memória de muitos traz, aos poucos, à claridade.

Essa história de agora, que começamos a contar, é feita de muitas histórias, de muitas memórias (e, lógico, re-desenhadas e re-inventadas por essas mesmas memórias). Talvez não seja de todo verdadeira, talvez muitos fatos estejam alterados, muitas datas equivocadas.

Essa é a história de um homem. Nem sabemos, ao certo, se foi um homem cuja história tenha alguma relevância ou importância de cunho social ou histórico. Se é uma história que mereça ser conhecida por muitos. Mas, para nós, que fazemos – de certa forma – parte da história desse homem, é uma história que merece ser contada. Nela encontramos um pouco de nossas verdades, nela reconhecemos alguns de nossos talentos e de nossos sonhos. Ela talvez explique algumas de nossas fraquezas. Ela nos une a um grupo, com particularidades, com uma identidade.  

Pois bem, é mesmo assim. Ao reconstruir a história de Luiz Marzano, muitas outras se fazem e se fizeram. Talvez tenhamos tempo para contá-las por aqui, talvez elas fiquem apenas em nossa memória. Com certeza elas contribuíram para o que estamos contando agora. É uma história construída por um grupo. E olha que tem gente por aqui que já não está nem mais entre nós, mas cujo trechinho da fala é de muito valor.

            Esperamos que gostem de ouvi-la.


                                                                        


Luiz Marzano em sua Alfaiataria Moderna com seus manequins
1968


O Começo De Tudo ou O Barquinho Vai, O Barquinho Vem...

        Vamos chamar de começo, mas como é difícil definir um começo! Principalmente quando pensamos em uma história feita de gente.

        Até bem pouco tempo, acreditávamos que o começo do Brasil tinha sido no dia 21 de abril de 1500. Foi assim que aprendemos nos bancos escolares na década de 1970. Éramos tão ingênuos, tão crédulos naquelas figuras que nos ensinaram a escutar, tão tolhidos em nossas percepções e sensibilidades, que não questionamos esse fato.

        Agora sabemos que o começo é sempre um começo escolhido por alguém, por um grupo, com um propósito bem determinado,

        Como tivemos nós aqui o poder dessa escolha, vamos começar nossa história relembrando um momento em que já não se podia mais manter a realidade da escravidão africana que – praticamente nos três séculos e meio anteriores – tinha sido a responsável pela produção de riqueza e ocupação territorial da ex-colônia portuguesa em que hoje vivemos.

        Era o final do século XIX; desde 1850 a lei Eusébio de Queiroz estabelecera o fim do tráfico de escravos para o Brasil. Outras leis, implementadas gradativamente até culminarem na Lei Áurea (em 1888), foram redigidas para documentar e tornar oficiais a abolição da prática da escravidão, que já não mais condizia com a realidade de um mundo moderno, regido por ideais iluministas (que chegavam ao Brasil com certo atraso) de liberdade e de igualdade entre os povos.

        Entretanto, a ocupação do território brasileiro além da faixa litorânea que, mesmo tardia, ganhara impulso com a descoberta do ouro e diamante em algumas regiões como Goiás e Minas Gerais, necessitava de material humano para se efetivar e para ter continuidade. A agricultura extensiva (de açúcar e de café, particularmente) e a agricultura intensiva, que fornecia alimento para a população nos centros urbanos, necessitavam mais do que mão de obra, mas também de pessoas que tivessem domínio de técnicas agrícolas.

        Por outro lado, o Novo Mundo consistia um atrativo para a população de boa parte da Europa, que passava por uma profunda mudança econômica e demográfica, marcada pelo aumento da densidade populacional e da escassez de trabalho nas áreas rurais, devido a modernização dos processos agrícolas e das mudanças na distribuição da posse das terras. Para os europeus as Américas representavam abundância de terras férteis e acesso à riqueza. Além disso, o progresso e a melhoria das condições de transporte (marítimo e ferroviário) prometiam facilidades antes não sonhadas para alcançar o outro lado do Atlântico e desbravar o interior das novas terras.

        O fluxo imigratório europeu para as terras americanas, espontâneo ou subsidiado pelo governo, alcançou grandes proporções, principalmente no período correspondido entre 1880 e a Primeira Guerra Mundial. Os Estados Unidos, a Argentina e o Canadá destacam-se pela absorção de grande volume de imigrantes espontâneos (...)  No caso do Brasil (...) a maioria dos imigrantes veio em função dos subsídios oferecidos. (BOTELHO, TARCÍSIO R., BRAGA, MARIANGELA P., ANDRADE e CRISTIANE V., Imigração e Família em Minas Gerais no final do século XIX. Revista Brasileira de História. São Paulo, v. 27, nº 54, 2007, p. 157)

        Minas Gerais apresentou algumas peculiaridades nesse processo. Embora não tenha sido o destino de grande massa de imigrantes neste período, a vinda dos europeus foi subsidiada pelo governo do estado com o propósito de favorecer o povoamento dos espaços rarefeitos do seu território e de promover mudanças qualitativas na agricultura, provendo tecnologia para uma exploração mais eficiente da terra. Assim, o imigrante não era destinado exclusivamente às fazendas de café (agricultura extensiva), mas a ele eram oferecidos alguns favores para ser proprietário de lotes rurais em alguns núcleos designados pelo estado.

        É na década de 1890 que se organiza melhor o serviço de introdução de imigrantes no estado de Minas Gerais, acompanhando a tendência do Brasil como um todo. São aprovadas leis e emitidos decretos com a finalidade de viabilizar a introdução dos imigrantes. Nos passos desses diplomas legais, contratos são realizados e o governo estadual designa funcionários para acompanhar a saída desses imigrantes da Europa e sua chegada e estabelecimento no Brasil. No estado, os imigrantes são encaminhados para as hospedarias encontradas em diversas localidades (Juiz de Fora, Belo Horizonte, Estação de Vista Alegre, Estação da Soledade) seguindo o modelo largamente adotado em São Paulo (idem, p. 162).

        No registro de imigrantes chegados à Minas Gerais, é observada a prevalência de italianos e espanhóis, notando-se igualmente a característica de consistirem núcleos familiares de menor ou maior porte.

        Em 1898 existiam quatro núcleos coloniais mantidos pelo Estado: Rodrigo Silva, nas proximidades de Barbacena; Maria Custódia, no município de Sabará; Barreiros, nas proximidades de Belo Horizonte; e São João Del Rei. Esses núcleos concentravam uma população de 1.920 indivíduos, dos quais 1.360 eram estrangeiros. O relatório de 1898 informa ainda que além destes núcleos regulares, diversos outros existem em formação em estabelecimentos agrícolas particulares nos quais tem-se colocado quase todos os imigrantes recebidos no Estado (idem, p.163).


                                                                               


Arvore genealógica tendo ao centro Moisés Marzano, pai de Luiz Marzano.

                                                                           


Moyses Marzano e Minelvina

        Nesse momento de nosso relato, cabe trazer à memória um casal italiano. Ele, Angelo Marzano, nascido em 08 de janeiro de 1827, em Lagonegro, Potenza, Basilicata e ela, Tereza Mazzaro, nascida em 22 de abril do mesmo ano e no mesmo local de Angelo, com quem viria a se casar em 27 de dezembro de 1852.

        Possivelmente na esperança de um futuro promissor e de poder ver realizados alguns sonhos (quem os saberá?), o senhor Angelo Marzano e a sua senhora, agora Teresa Marzano, deixaram a terra italiana, embarcando em Nápoles no navio La France em direção ao Rio de Janeiro, onde aportaram em 03 de agosto de 1882:

        Chegou ao Brasil em 03 de agosto de 1882 (Rio de Janeiro). O "Vapeur La France", que saiu de Marseille, France, em 14 de "juillet" (julho" de 1882), parou em "Genoa" (Gênova) e, após, em "Naples" (Nápoles), chegando ao Rio de Janeiro em 03 de agosto de 1882, recebendo a notação, no Porto do Rio de Janeiro, de "BR.AN.RIO.OL.O.RPV.PRJ 1742" Pois bem, na listagem pode-se ver, com certa clareza, dois passageiros: ANGELO MARZANO, nº origem 7, profissão "Ferblantir" (Ferreiro - ou funileiro), casado, passageiro da 3ª Classe, embarcado em "Naples" (Nápoles) Teresa Marzano, nº origem 8, casada, passageira da 3ª Classe, embarcada em "Naples" (Nápoles) Ambos chegaram ao Rio de Janeiro e foram para Entre Rios de Minas.  (disponível em https://www.familysearch.org/tree/person/details/LTZJ-S58#:~:text=3%20colaboradores%20anteriores-,Chegou%20ao%20Brasil%20em%2003%20de%20agosto%20de%201882%20(Rio%20de,VER%20TODAS%20AS%20ALTERA%C3%87%C3%95ES ,ultima alteração em 17 de outubro de 2022, realizada por Paulo Marzano Cintra.)

        Angelo Marzano e Teresa (na época ambos com cerca de 55 anos), não foram os únicos a buscar uma nova vida no Brasil. Pelo menos três de seus cinco filhos também vieram para cá, de acordo com registros que encontramos: Salvatore, Moysés e Gesualda Marzano.

        Em um trabalho de pesquisa, também registrada no site www.familysearch.org, por Paulo Marzano Cintra, encontra-se cópia do cartão de imigração digital de Salvatore Marzano (nascido em 11/08/1863), jornaleiro, que teria chegado ao Brasil em dezembro de 1880 com apenas 17 anos (disponível em https://www.familysearch.org/photos/artifacts/161463495?cid=mem_copy).

        Quanto a Moyses Marzano, seu nome consta como o passageiro de número 647 do Vapor Baltimore, listado na página 19 do documento br_rjanrio_ol_0_rpv_prj_01142,  pela Divisão de Polícia Marítima, Aérea e de Fronteiras. Ele teria saído de Gênova com destino ao Rio de Janeiro, onde chegou em 18 de janeiro de 1880, com 24 anos. (disponível em https://www.familysearch.org/photos/artifacts/161468889?p=21213199&returnLabel=Moys%C3%A9s%20Marzano%20(LK4G-Q3F)&returnUrl=https%3A%2F%2Fwww.familysearch.org%2Ftree%2Fperson%2Fmemories%2FLK4G-Q3F ).

        A vinda de Gesualda Marzano, por sua vez, é conhecida de acordo com relato de Sonia Thereza Borges de Souza, em grupo de família do Facebook (PAGLIAMINUTAS, AVERSAS, MARZANOS E PANZERAS), narrado por Tiago Navarro, membro do grupo em fevereiro de 2021. Segundo esse relato, “Moyses Marzano acolheu sua irmã Gesualda Marzano quando ela chegou da Itália. Ela foi com as crianças Angelo Panzera, Giovanni Panzera, Maira Philomena Panzera e Maria Carmela Panzera para um lugar onde os italianos trabalhavam. Ela trabalhou em São João d'El Rei num lugar de imigrantes italianos, que até hoje se chama Colônia”.

                                                            

                                                   


Moyses Marzano
1940



             Moyses Marzano (ou Mose Marzano ou, ainda, Moisés Marçano), nascido em Lagonegro, região da Basilicata (Itália), em 28 de outubro de 1855, se estabeleceu na região que hoje compreende o município de Entre Rios de Minas e  desposou  Minelvina  Maria de Jesus Lisboa. Minelvina, nascida naquela cidade em 22 de abril de 1866, era filha de um imigrante português, Antonio dos Santos Lisboa e de Maria Delfina de Jesus  (ou Maria Delfina Coelho): Fonte: "Brasil Batismos, 1688-1935", database, FamilySearch (https://familysearch.org/ark:/61903/1:1:XV7R-GLR : 14 February 2020), Maria dos Santos, 1866.

O casamento foi celebrado em Entre Rios de Minas, (https://www.familysearch.org/photos/artifacts/131501725?cid=mem_copy), em 28 de novembro de 1885. Tiveram pelo menos doze filhos (vivos até a idade adulta), mantendo a tradição de nomear os dois primeiros com os nomes dos avós paternos: Angelo, Maria Tereza, Emília,  Valentim, Nicolau, Luiz, Margarida, Antonio, Salvador, José, Ana e Francisco.

Moyses, segundo relatos de seus descendentes, prosperou construindo alambiques para fazendeiros da região e posteriormente trabalhou no comércio. A comemoração das bodas de ouro do casal (50 anos de casamento), foi realizada em Entre Rios de Minas, com a presença de muitos familiares e convidados, sendo a festa comentada durante muito tempo e registrada em uma bonita e interessante fotografia, onde reconhecemos muitos de seus filhos e netos.

Moyses faleceu em Entre Rios de Minas, em 01 de novembro de 1941 e Minelvina faleceu dois anos depois, em 29 de dezembro.






Fotografia tirada por ocasião das Bodas de Ouro do casal Moyses e Minelvina
(Entre Rios de Minas, 1935)


O Nascimento de Luiz Marzano

        Dez anos depois de seu casamento com Moyses Marzano, Minelvina deu à luz a um menino, Luiz.

        Isso de acordo com a via de sua Certidão de Nascimento tirada em 2001. Ali, consta a seguinte data de nascimento: 26 de novembro de 1895.

        Entretanto, todo mundo já ouviu alguma história sobre os nascimentos de “antigamente”, isto é, da época anterior  ou mesmo contemporânea à sistematização e à universalização do registro civil, imposta pelo Decreto 9886 de 7 de março de 1888. Esse Decreto, que efetivamente entra em vigor somente em 1889, instituiu a obrigatoriedade do registro de nascimento, casamento e óbito em ofícios do Estado, deixando então esse ato de ser prerrogativa da Igreja Católica. A população do interior do país, particularmente, demora a incorporar esse dever, seja pela ausência de cartórios próximos ao local de residência ou por outros motivos. (disponível em https://pt.wikipedia.org/wiki/Registro_civil_no_Brasil)

        Portanto, não nos causa tanta estranheza que encontremos pelo menos, além da certidão em questão, outros dois registros diferentes de datas para marcar o início da vida de Luiz Marzano: aquele anotado em sua carteira de identidade emitida em 1949 (foto abaixo) e aquele mencionado pelos seus filhos e mesmo netos que conviveram mais de perto com ele. No primeiro caso, o ano de nascimento é 1897.

        No segundo caso, marcado afetivamente pela comemoração inclusive de seus aniversários, Luiz Marzano teria nascido em 24 de novembro de 1896!

        Dois de seus filhos, movidos pelo propósito de manter viva a história de Luiz Marzano, bem antes dessa iniciativa de agora, falam dessa mesma data.

        Vinicio Marzano há muito procurou reunir a obra do pai (composições musicais, das quais falaremos mais tarde), organizá-la em um pequeno caderno que distribuiu para os irmãos e alguns sobrinhos e o fez, precedendo as cópias com uma pequena biografia, que se inicia da seguinte forma:  Luiz Marzano nasceu em Entre Rios de Minas MG em 24 de novembro de 1896...”

        Luiz Marzano Filho, ao publicar seu primeiro livro “Um Sonho... o Éden”, em 1998, também dedica o apêndice aos pais, relatando que “Meu pai...nascido em 24 de novembro de 1896...” (FILHO, Luiz Marzano. Um sonho...o Éden. Ouro Preto. 1998, p. 106).

        Há ainda um caderno, distribuído em Ouro Preto não sabemos precisar exatamente em que ano, em cuja contracapa uma breve biografia também reforça a idéia de que ele teria nascido em 1896.




Certidão de Nascimento Luiz Marzano






Biografia anexada a conjunto de partituras musicais de Luiz Marzano, organizadas por Vinicio Marzano por ocasião de Encontro de Família em 1998, realizado em Belo Horizonte, MG







Carteira de identidade Luiz Marzano 1949



        Vamos então, por esse momento, deixar de lado o rigor quanto a essa questão de data de nascimento. Não nos referimos, anteriormente, que o início das histórias é sempre marcado por algum referencial particular?

        Aliás, vamos prosseguir agora com um pouco de ficção e poesia? (essas primeiras páginas estão nos  parecendo um pouco enfadonhas com tantas referências de data e de marcas biográficas....)

O Menino Luiz

        Aquele menino, o Luiz, era inquieto. Não lhe bastava aquela vida em Entre Rios de Minas, junto à família, naquela rotina e casa de sempre. Seu coração se inquietava, já precocemente batia num ritmo diferente, prenunciava uma melodia que ia ser diferente daquela que parecia ter sido composta para ele por seus pais.

        Seus olhos sonhavam com um pouco de aventura: afinal seu pai e avós não haviam cruzado o oceano para buscar novas terras? Quem, então, se oporia a seus sonhos, àquela voz que lhe falava de uma vida diferente, mais promissora?

        Na lida diária, ajudando sua mãe, a lhe trazer a lenha, a cultivar a horta, a cuidar da criação da família, ia distraído, cantarolando as canções que ouvia – aquelas que relembravam a terra italiana dos seus antepassados e também aquelas aprendidas com o povo que por aqui já se encontrava (gente do gado, gente da lavoura, mistura colorida de sons e origens) – canções  que avós, tios e outros parentes faziam soar nas reuniões familiares.

        Curioso, espichava o ouvido para escutar as conversas dos passantes, ouvia falar das cidades próximas, das novidades. E assim, um dia, ouviu falar daquela cidade encantada, que ostentava casarões e palácios, que acalentara um grande sonho de liberdade, que pairava no momento um pouco esquecida, pois deixara de ser a capital do estado. Mas continuava solene, rodeada de serras, e de histórias, e de arte, onde muita gente importante ainda morava.

        O menino Luiz não era um menino comum. Se tivesse sido, estaríamos agora escrevendo aqui sobre ele? Se tivesse permanecido onde fora colocado, se tivesse aceitado seu destino, se tivesse se tornado um agricultor, um criador de gado, se tivesse namorado e se casado com a moça bonita que iria se tornar Rosinha, sua companheira de brincadeiras na rua, possivelmente não seria aqui lembrado, da maneira que está sendo.

        Se o Moisés e D. Minervina se preocupavam. O que ia ser do Luizinho? Por que aquele sonho no olhar? Aquelas febres? Pois sempre estava distraído, não os atendia direito, postergava as tarefas diárias. Já não era criança, daqui a pouco teria que assumir novas funções na roça, novas responsabilidades. E seo Moisés, um pouco carrancudo como todo bom italiano que se preze, ao ver o menino no caminho torto, passava-lhe suas carraspanas....

        Assim foi indo, até que um dia, numa desses desencontros com os pais, Luis tomou o rumo de Ouro Preto. Ele nos contou, muito tempo depois, que tinha dezesseis anos naquela época (conferir em entrevista publicada no Informativo Ouro Preto, em março de 1969, redigida por Maria do Carmo Correa, constante no blog).

        Era a primeira década do século XX. Eram novos os tempos. E lá se foi o menino, não sabemos bem como, se de uma carona aqui, outra acolá, se tomou alguma condução, se foi escondido, se estranhou o percurso, um tanto longo, com tantas curvas no caminho....

        E avistou o Itacolomi. E se admirou com aquele casario lindo, diferente, imponente. E caminhou por sobre as pontes de pedra, bebeu água de muito chafariz, tropicou nas pedras irregulares, avistou varandas e enormes portas e janelas, e muita gente pelas ruas, e muitas ladeiras.

        E se frustrou também um bocado. A cidade, que respirara ouro, que respirara luxo, por onde tantos heróis da liberdade caminharam, a musa inspiradora de tanta poesia e graça, não estava tão enfeitada e viçosa quanto esperava. Havia mais cinza que brancura em seus grandes muros, suas pedras se escondiam no verde do limo, as calçadas descuidadas, os grandes prédios públicos tristonhos.... Era um momento de decadência da cidade. E, se o rapaz esperava um grande acolhimento, Ouro Preto lhe mostrou – de pronto – mais dureza e frio do que aquela alma juvenil esperara encontrar. E veio a noite, e lhe restou a rua. E ficamos por aqui imaginando, com o coração um pouco apertado, o que passou pela mente daquele jovem filho de imigrantes, num mundo novo, imenso e desconhecido naqueles momentos primeiros.

        Ele mesmo falaria disso, trazendo de volta aquele tempo: “Aportei em Ouro Preto dia 21 de outubro de 1912. Vim fugido, pois meu pai não concordava com a minha vinda. Aqui cheguei no inverno, com apenas duzentos réis no bolso, sendo obrigado a dormir na rua e tomar café com os amigos eventuais”. (novamente de acordo com entrevista por ele concedida a Maria do Carmo Correa e publicada no Informativo Ouro Preto, em março de 1969, constante no blog).


* Os filhos de Luiz Marzano, Luiz Marzano Filho e Vinicio, em seus relatos, consideram que o pai teria chegado a Ouro Preto antes de 1912, quando teria perto de 14 anos de idade. É o que trazem consigo de memória.



                                                                


Ouro Preto, 16 de novembro de 1964. Arquivo Nacional. Fundo Correio da Manhã. BR.RJANRIO.PH.FOT.1925/39.