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quarta-feira, 26 de abril de 2023

Entrelinhas: as Linhas da Costura

   O jovem Luiz Marzano encontrou apoio e trabalho junto à alfaiataria do Sr. Antonio Cristino, tornando-se aprendiz de alfaiate. Foi então que começou a dar uma nova direção à sua vida. A alinhavar e a costurar um novo futuro, a pregar botões e novas certezas, a aprender novos caminhos.

    Foi com sua lida como alfaiate que Luiz Marzano sustentou, posteriormente, sua família que – como muitas naqueles anos – foi bastante numerosa.

    Luiz Marzano Filho (em sua obra “O Velho Teimoso: Um Sonho...o Éden III”, p.122), relata que seu pai – após se casar com Maria José Trópia, em 1915 -  foi residir com a esposa no município de Conselheiro Lafaiete, então Distrito de Queluz, onde foi trabalhar na “Alfaiataria do Sr. Joubert”.

    Posteriormente, chegou a abrir naquele local sua própria loja, “na parte baixa, próximo ao Rio Bananeiras”. Encontramos registro de Luiz Marzano como Alfaiate, autônomo, em Queluz  já a partir do ano de 1915.(http://memoria.bn.br/DocReader/Hotpage/HotpageBN.aspxbib=313394&pagfis=117199&url=http://memoria.bn.br/docreader#)

    Em 1919 chegamos a encontrar alguns anúncios nos jornais “O Lafayettense” e “A Voz do Povo”, do município de Conselheiro Lafaiete de sua então “Alfaiataria Paris”, situada primeiramente na Rua Marechal Floriano e, posteriormente na Rua Dr. Campolina, ambos destacando sua “confecção esmerada” e seus “preços módicos”.

    Retornando a Ouro Preto, possivelmente ainda em 1919, após o nascimento de seu segundo filho, Vicente, inaugurou ali sua “Alfaiataria Moderna”.

    Como alfaiate nessa cidade, ampliou sua clientela e seus serviços, inclusive de confecção de uniformes militares. Segundo relato de Vinicio Marzano, “era praticamente o único a confeccionar uniformes” para os integrantes do 10º Batalhão de Caçadores do Exército Brasileiro, que é instalado em Ouro Preto a partir de 1922.

    Pelo menos dois de seus filhos, Vicente e Luiz Marzano Filho, auxiliaram o pai na oficina. Luiz Marzano teve também outros grandes parceiros, com quem compartilhava seu trabalho, dividido em etapas (modelagem, corte dos tecidos, costura e acabamento), sendo o Sr. Porfírio Guimarães citado pelo filho Luiz como um dos sócios do pai em sua época mais promissora como alfaiate. 

    Lygia Marzano, sua filha mais nova, que permaneceu residindo com o pai até seu falecimento, em 1973, recorda-se que o pai compartilhava seu conhecimento de alfaiataria, inclusive com alfaiates da capital, Belo Horizonte, ensinando a todos que lhe pediam, suas técnicas.

    Em seu período mais propício, a partir de 1935, a Alfaiataria Moderna esteve situada no início da Rua Conde de Bobadela (Rua Direita) onde, ainda segundo Luiz Marzano Filho, “pela primeira vez”, seu pai “conseguira comprar, reformar e reunir o ambiente do seu ofício com o do lar” (O Menino Travesso: Um Sonho...o Éden II, p. 31). Mas este período teria durado poucos anos.

    Também segundo Luiz Marzano Filho -  desta vez em sua obra “Um Sonho ... o Éden”, de 1988, p. 107 -  “por ocasião da Segunda Guerra, com a remoção do 10º BC para a orla marítima...seu pai teria sido obrigado a desfazer a sociedade que mantinha com seu grande amigo, Porfírio Guimarães, e a demitir alguns de seus oficiais alfaiates, para o que foi necessário vender a única casa que conseguiu possuir e usufruir por apenas três anos”.

    Apesar das dificuldades, Luiz Marzano parecia sempre encontrar formas criativas para persistir. É ainda seu filho Luiz que relata que, nessa mesma época da Segunda Grande Guerra, ele “cismou” em fabricar giz de alfaiate, já que o produto – anteriormente importado da França – começou a faltar no mercado.

    “Com a orientação e ajuda do professor de Química da Escola de Minas, Francisco Pignatari, após alguns meses de experimentos e ensaios diversos, conseguiu alcançar a fórmula definitiva e satisfatória ao uso próprio, misturando argilas, tintas e outros ingredientes, utilizando aparelhos e estampa idealizados por si mesmo. Montou, em seguida, uma indústria caseira, pequena” e começou a atender também alfaiates de outras cidades (Marzano Filho, Luiz . Um Sonho... o Éden. P. 109).














O Gordo e o Magro

             Paralelamente à alfaiataria, Luiz Marzano manteve sempre uma loja de tecidos e afins, como cobertores, outras confecções,etc. Procurava se manter atualizado, “comprava revistas de moda masculina, comuns na época, para adquirir conhecimentos dos novos modos de corte e costura e, depois de aprendê-los, procurava transmiti-los aos seus oficiais e mesmo aos concorrentes" (Marzano Filho, Luiz . Um Sonho... o Éden. P. 109).

            Seu último endereço comercial foi o da Rua São José, número 83. São desse lugar, impregnado de lembranças e saudades, as melhores memórias desse avô.

            Ali ele trabalhava, ali ele atendia seus clientes, sempre com bom humor e disponibilidade para uma conversa.

            Se você nasceu em Ouro Preto, há alguns anos atrás, há de se lembrar dos seus manequins. Seus famosos manequins, e Oliver Hardy e Stan Laurel  – o Gordo e o Magro. Foram admirados e fotografados incontáveis vezes, por ouropretanos, por curiosos, por turistas e até mesmo por artistas que passaram por aquela calçada da Rua São José.

            Tanto é verdade que uma foto da Alfaiataria Moderna, com seus manequins à porta foi parar no Metropolitam Museum of Arts, em Nova Iorque. A referida foto foi tirada em 1956, por Esther Bubley, um dos ícones da história da fotografia e fotojornalismo que, passando em Ouro Preto durante uma viagem a trabalho pela América Latina, capturou um momento especial e mágico, reunindo dois outros homens aos bonecos, os quatro voltados a olhar uma mulher que passava na calçada.

            O grande pintor e artista Alberto da Veiga Guignard, que residiu em Ouro Preto nos seus últimos anos de vida, também se deixou flagrar pela câmera à porta da Loja Marzano, em companhia e diálogo com os manequins de Luiz Marzano.

            Após o falecimento de Luiz Marzano, em 1972, sua filha caçula, Lygia, continuou à frente da Loja Marzano por aproximadamente mais 30 anos.


                                                                                 



Luiz Marzano e seus manequins 1971

   


Luiz Marzano entre seus famosos manequins






Guignard à porta da Alfaiataria Marzano





Guignard saindo da Alfaiataria e Loja Marzano







Fotografia realizada por Esther Bubley em 1956