quarta-feira, 26 de abril de 2023

O Menino Luiz

        Aquele menino, o Luiz, era inquieto. Não lhe bastava aquela vida em Entre Rios de Minas, junto à família, naquela rotina e casa de sempre. Seu coração se inquietava, já precocemente batia num ritmo diferente, prenunciava uma melodia que ia ser diferente daquela que parecia ter sido composta para ele por seus pais.

        Seus olhos sonhavam com um pouco de aventura: afinal seu pai e avós não haviam cruzado o oceano para buscar novas terras? Quem, então, se oporia a seus sonhos, àquela voz que lhe falava de uma vida diferente, mais promissora?

        Na lida diária, ajudando sua mãe, a lhe trazer a lenha, a cultivar a horta, a cuidar da criação da família, ia distraído, cantarolando as canções que ouvia – aquelas que relembravam a terra italiana dos seus antepassados e também aquelas aprendidas com o povo que por aqui já se encontrava (gente do gado, gente da lavoura, mistura colorida de sons e origens) – canções  que avós, tios e outros parentes faziam soar nas reuniões familiares.

        Curioso, espichava o ouvido para escutar as conversas dos passantes, ouvia falar das cidades próximas, das novidades. E assim, um dia, ouviu falar daquela cidade encantada, que ostentava casarões e palácios, que acalentara um grande sonho de liberdade, que pairava no momento um pouco esquecida, pois deixara de ser a capital do estado. Mas continuava solene, rodeada de serras, e de histórias, e de arte, onde muita gente importante ainda morava.

        O menino Luiz não era um menino comum. Se tivesse sido, estaríamos agora escrevendo aqui sobre ele? Se tivesse permanecido onde fora colocado, se tivesse aceitado seu destino, se tivesse se tornado um agricultor, um criador de gado, se tivesse namorado e se casado com a moça bonita que iria se tornar Rosinha, sua companheira de brincadeiras na rua, possivelmente não seria aqui lembrado, da maneira que está sendo.

        Se o Moisés e D. Minervina se preocupavam. O que ia ser do Luizinho? Por que aquele sonho no olhar? Aquelas febres? Pois sempre estava distraído, não os atendia direito, postergava as tarefas diárias. Já não era criança, daqui a pouco teria que assumir novas funções na roça, novas responsabilidades. E seo Moisés, um pouco carrancudo como todo bom italiano que se preze, ao ver o menino no caminho torto, passava-lhe suas carraspanas....

        Assim foi indo, até que um dia, numa desses desencontros com os pais, Luis tomou o rumo de Ouro Preto. Ele nos contou, muito tempo depois, que tinha dezesseis anos naquela época (conferir em entrevista publicada no Informativo Ouro Preto, em março de 1969, redigida por Maria do Carmo Correa, constante no blog).

        Era a primeira década do século XX. Eram novos os tempos. E lá se foi o menino, não sabemos bem como, se de uma carona aqui, outra acolá, se tomou alguma condução, se foi escondido, se estranhou o percurso, um tanto longo, com tantas curvas no caminho....

        E avistou o Itacolomi. E se admirou com aquele casario lindo, diferente, imponente. E caminhou por sobre as pontes de pedra, bebeu água de muito chafariz, tropicou nas pedras irregulares, avistou varandas e enormes portas e janelas, e muita gente pelas ruas, e muitas ladeiras.

        E se frustrou também um bocado. A cidade, que respirara ouro, que respirara luxo, por onde tantos heróis da liberdade caminharam, a musa inspiradora de tanta poesia e graça, não estava tão enfeitada e viçosa quanto esperava. Havia mais cinza que brancura em seus grandes muros, suas pedras se escondiam no verde do limo, as calçadas descuidadas, os grandes prédios públicos tristonhos.... Era um momento de decadência da cidade. E, se o rapaz esperava um grande acolhimento, Ouro Preto lhe mostrou – de pronto – mais dureza e frio do que aquela alma juvenil esperara encontrar. E veio a noite, e lhe restou a rua. E ficamos por aqui imaginando, com o coração um pouco apertado, o que passou pela mente daquele jovem filho de imigrantes, num mundo novo, imenso e desconhecido naqueles momentos primeiros.

        Ele mesmo falaria disso, trazendo de volta aquele tempo: “Aportei em Ouro Preto dia 21 de outubro de 1912. Vim fugido, pois meu pai não concordava com a minha vinda. Aqui cheguei no inverno, com apenas duzentos réis no bolso, sendo obrigado a dormir na rua e tomar café com os amigos eventuais”. (novamente de acordo com entrevista por ele concedida a Maria do Carmo Correa e publicada no Informativo Ouro Preto, em março de 1969, constante no blog).


* Os filhos de Luiz Marzano, Luiz Marzano Filho e Vinicio, em seus relatos, consideram que o pai teria chegado a Ouro Preto antes de 1912, quando teria perto de 14 anos de idade. É o que trazem consigo de memória.



                                                                


Ouro Preto, 16 de novembro de 1964. Arquivo Nacional. Fundo Correio da Manhã. BR.RJANRIO.PH.FOT.1925/39.



        



Nenhum comentário:

Postar um comentário