quarta-feira, 26 de abril de 2023

Outras incursões pelas linhas da pauta

 

       Salvador Trópia, cunhado de Luiz Marzano, irmão de sua esposa Maria José Trópia Marzano, tinha um sonho: ter uma sala de cinema em Ouro Preto. Naquela cidade, desde os primeiros anos do século XX já funcionavam algumas salas de cinema (Cine Estrela do Sul e Cine Brasil).

Em 1926, Salvador vendeu seu armazém e adquiriu uma sala de propriedade do Sr. Joaquim de Oliveira, instalada provisoriamente no Teatro Municipal (Casa da Ópera). Posteriormente, comprou um prédio na então Rua Tiradentes, nº 17, reformou-o e adaptou-o para cinema. Nasceu ali o Cine Central. (Tavares, Ana Regina Bittencourt. Recordações – Yone Tropia Bittencourt. Belo Horizonte: 3i Editora, 2013, p. 107 e 108).

Até 1927, quando foi lançado, em Nova Iorque, o primeiro longa metragem sonoro, “O Cantor de Jazz” (The Jazz Singer), do diretor Alan Crosland, no qual as falas e o canto gravados em um disco de acetato eram sincronizados com a projeção das imagens do filme, o cinema era um espetáculo mudo.

Essa novidade demorou a chegar ao interior de Minas. E no Cine Central, como na maioria das salas de cinema, havia a cada sessão a execução de músicas, tocadas por alguns instrumentistas, que procuravam – modulando gêneros musicais e andamentos – acompanhar as cenas dos filmes que eram projetados nas telas, tornando a experiência do cinema mais completa.

Vinício Marzano nos relata que Luiz Marzano, juntamente com seus cunhados Salvador, José e Joãozinho Trópia, e sobrinhas,filhas de Salvador (Rosa, Eunice e Geralda) tocava na orquestra do cinema, pelo menos até o ano de 1929.

Aprimorando cada vez mais sua técnica na clarineta e saxofone, além de seu conhecimento geral em termos musicais, Luiz Marzano – além da atividade nas bandas, às quais nos referimos anteriormente – fazia igualmente parte de conjuntos musicais que tocavam por ocasião de festas religiosas em diversas igrejas de Ouro Preto.

Por outro lado, seu espírito livre e arrojado o fez também participar de conjuntos de “Jazz-band”, tocando em festas, bailes sociais e carnavalescos. Em postagem realizada recentemente (28 de agosto de 2018) em página de rede social do Festival “Tudo é Jazz” (disponível em https://www.facebook.com/profile/100067515433171/search/?q=Luiz%20Marzano), Luiz Marzano é citado como um dos músicos que constituíram o grupo de Jazz-Band Vila Rica, em 1959.

Entretanto, há registros anteriores de sua participação em diversas bandas que animavam bailes e carnavais ouropretanos, já a partir da década de 1930, sejam na Associação Comercial, no Centro Acadêmico da Escola de Minas de Ouro Preto, no Clube Quinze de Novembro, ou no Clube dos Lacaios. Uma fotografia da banda “Paulo e seu Ritmo”, tradicional em Ouro Preto por esses anos, mostra Luiz Marzano como um de seus integrantes.






Luiz Marzano Filho, em seu livro “Um Sonho... o Éden”, p. 108, cita ainda a participação do pai no conjunto “Marinheiros do Ar-Marinho” (fazendo menção à sua profissão como alfaiate) até seus últimos anos de atividade profissional. Com o pai, chegaram a tocar alguns de seus filhos, inclusive Petrônio, em instrumentos de percussão. Vários de seus netos se recordam de vê-lo no palco, animando o baile, enquanto dançavam nos clubes ouropretanos.

Para além dos bailes, Luiz Marzano tinha uma paixão pelas tradicionais serenatas. Até hoje é lembrado por alguns ouropretanos como seresteiro, ao lado de companheiros como Zé Murta, Lamparina, Joaquim de Brito, Sô Gê e, inclusive, de um de seus filhos, Vicente, que se mudou ainda jovem para Belo Horizonte. (segundo relato de Vinicio Marzano, outro de seus filhos). Luiz Marzano Filho nos relata que seu pai, com bom humor, dizia que gostava de tocar nas partes mais altas da cidade, para que toda a população ouropretana o pudesse ouvir. (Luiz Marzano Filho em seu livro: “Um Sonho... o Éden”, p. 109)

Dos sete filhos de Luiz Marzano e Maria José Tropia que chegaram à idade adulta, Vicente Marzano - apesar de ter aprendido o ofício de alfaiate - foi o único que se dedicou quase que integralmente à carreira musical.

Assim como seu pai, autodidata e apaixonado pela música, dedicou-se ao violino e exerceu sua atividade como músico inicialmente nas Rádios Guarani e Inconfidência, em Belo Horizonte, além de tocar em restaurantes e casas noturnas. Posteriormente, foi convidado para membro da Orquestra Sinfônica da Polícia Militar de Minas Gerais, quando de sua formação (1948), onde tocou viola e violino. (Homem, Fernando Pacífico As influências do Maestro Sebastião Vianna no cenário musical erudito de Belo Horizonte / Fernando Pacífico Homem. _Salvador, 2013, p. 131 e 173).

Luiz Marzano, “sempre procurando uma distração nas horas disponíveis”, segundo relato de seu filho Vinicio Marzano, também iniciou em 1948 a confecção de palhetas para instrumentos de sopro (clarineta e saxofone), utilizando-se da cana do reino que crescia no quintal de sua casa. Construiu uma pequena oficina neste mesmo quintal, onde as confeccionava, fornecendo-as para muitos músicos e comerciantes da região, inclusive a "Casa Marcatto", em Belo Horizonte, ainda existente, e na época referência como local para aquisição e conserto de instrumentos musicais variados.

 



Luiz Marzano tocando ao lado de Silvio Caldas, José Benedito Neves (na ocasião prefeito de Ouro Preto) e Wilson Frade - julho de 1965




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