Os relatos ouvidos de nosso pai e de nossos tios nos fazem acreditar que a vida não foi muito fácil para aquela família numerosa.
As dificuldades financeiras
sempre acompanharam Luiz Marzano em sua vida profissional; sua família mudava
constantemente de casa, sempre que havia um aumento de aluguel ou que o
proprietário decidia não mais alugar o imóvel.
Quanto a essa questão da
moradia temos conosco duas narrativas muito interessantes, que aqui passamos a
contar.
Em seu livro de memórias,
Yone Tropia Bittencourt, sobrinha de Luiz Marzano e Maria José, lembra-se de
quando aquela família morou no sobrado construído no local onde antes se
situava a casa onde morou Tiradentes, hoje abrigando a Associação Comercial de
Ouro Preto. Ela se recorda: “Eu tinha
horror de ir até lá, pois os meus irmãos diziam que, quando eu passasse no
corredor, o Tiradentes iria me agarrar; por isso, quando eu chegava na porta,
gritava por minha tia e subia a escada embalada” (Tavares, Ana Regina
Bittencourt. Recordações – Yone Tropia Bittencourt. Belo Horizonte: 3i Editora,
2013).
A outra - uma das muitas
histórias narradas pelo meu pai, Petronio
- dizia respeito a uma das mudanças que iriam empreender. Para
realizá-la, os jovens moços da família fizeram-se valer de carrinhos de mão (de
construção) com os quais carregavam os pertences. Após inúmeras viagens, que
demandaram grande esforço por conta das ladeiras de Ouro Preto, sua mãe tomou a
decisão de não querer mais se mudar para aquele novo local, fazendo-os retornar
com tudo o que já havia sido transportado!... Segundo ele, a mãe teria ficado
sabendo que uma outra mulher, suposta amante do marido, teria visitado a casa
antes dela!
A partir de 1949, tendo Luiz
Marzano Filho recebido seu pagamento pelo trabalho desenvolvido durante um ano
na Serra do Navio, no Amapá (seu primeiro emprego após a formatura como
engenheiro pela Escola de Minas de Ouro Preto), este adquiriu uma casa na Rua
do Pilar e a cedeu para que seus pais e irmãos ali residissem. Ali permaneceram
até 1962, quando Luiz Marzano Filho construiu uma residência à Rua Antonio de
Albuquerque onde foram morar seu pai e seus irmãos mais novos, visto que sua
mãe, Maria José Tropia, falecera recentemente.
Luiz Marzano talvez não
fosse o exemplo de um marido exemplar e caseiro, “trabalhava o dia inteiro na
sua alfaiataria com lojinha anexa; gostava de compartilhar momentos em
‘jazz-band’ com amigos e parentes”... e era seresteiro (Luiz Marzano Filho em “O Velho Teimoso: Um
sonho...o Éden III”, p.121-123).
A nós, netos, pouco era dado
a conhecer sobre sua vida social e boêmia, mas hoje compreendemos melhor o
porquê de algumas valsas por ele compostas serem dedicadas a outras mulheres.
Entretanto, sejam movidos
pela compreensão ou pelo respeito, os filhos sempre se referiram a ele com palavras
carinhosas. Luiz Marzano Filho, em suas três obras autobiográficas que muito
nos auxiliam nessa reconstrução biográfica de Luiz Marzano, por diversos
momentos reconhece no pai uma pessoa possuidora de “bom coração, elevado astral
e de fácil meio de comunicação... que não era perfeito, mas nunca deixou de
cuidar da família... com carinho, conselhos saudáveis e assistência completa ao
lar” (em “O Velho Teimoso: Um Sonho... o Éden III, p.121, 122).
Em “Um Sonho... o Éden”, nas
páginas 106 e 107, Luiz Marzano Filho nos fala também do pai amoroso e
cuidadoso com a formação dos filhos, tendo inclusive recusado trabalho em Belo
Horizonte, num momento de maior dificuldade financeira, pois acreditava que os
filhos teriam maior oportunidade de estudo na cidade de Ouro Preto, o que veio
a concretizar-se, com a formação de três de seus filhos em Engenharia pela
então Escola de Minas de Ouro Preto.
Já a sua Maria era caseira.
“viveu exclusivamente do lar para a igreja, da igreja para o lar” (Luiz Marzano
Filho, idem, p. 105 e 106). Mantinha grande amizade e cumplicidade com sua
cunhada Adelina, casada com Salvador Tropia. As duas eram companheiras também
em seu modo de ser, reservadas – embora sempre com um sorriso no rosto –
devotas à religião (frequentando diariamente a igreja) e a seus lares, onde se
esmeravam no cuidado com os filhos e com a alimentação da família, preparando
deliciosas macarronadas.
“Lembro-me de minha mãe sempre ajoelhada, quer
na igreja ou no seu quarto, a fazer suas orações, em tom baixinho, como se a
pedir pela felicidade e saúde de todos os seus entes queridos e, ainda, talvez,
que a boemia do seu querido esposo se abrandasse” (Luiz Marzano Filho,idem, p.
106)
Ambos, Luiz e Maria José,
embora não tivessem mais que o “Ensino Primário” na época, procuraram
incentivar os filhos a estudarem, o que na época não era muito comum às
famílias. Luiz Marzano, com seu espírito livre e arrojado, gostava de ler,
conversar e se informar com pessoas cultas, e transmitir valores que prezava para seus
filhos.
Formaram uma família feliz e
unida. Hoje são muitos os descendentes de seus sete filhos que chegaram à idade
adulta. Voltaremos a esse assunto em outra postagem.
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Luiz Marzano em foto de 1929 |
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Maria José Tropia |
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Luiz Marzano, em foto de 1966, ao lado dos sete filhos, da esquerda para direita: Vinicio, Petronio, Luiz, Lygia, Vicente, Maria da Conceição, Luiz Filho e Itália |



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