Como meu
avô, guardo dele poucas lembranças. Mesmo acreditando que devo tê-lo encontrado
inúmeras vezes, pois morei em Ouro Preto nos meus primeiros cinco anos e o vejo
hoje em algumas fotos comigo e com meus pais, minhas lembranças mais marcantes
se resumem a duas.
Na primeira, ele está em sua
casa, e ali tem muita gente, e todos estão atentos à pequena tela da televisão
em branco em preto. Muito mais tarde vim a compreender que assistiam à final da
Copa do Mundo de 1970. Em campo, os dois times do coração de Luiz Marzano: Brasil e Itália. Terminado o jogo, em meio a muita euforia e abraços
entre os presentes, vi meu avô chorando. Meu avô, Luiz Marzano, foi o primeiro
homem que eu vi chorar. Eu me lembro que fiquei muito surpresa com esse fato,
quase incrédula. Sei lá, coisas de menina, numa época em que ainda era mais
presente do que hoje essas tais marcas ou “características” que foram
construídas para cada gênero.
A segunda é uma lembrança
repetitiva. Talvez eu já fosse um pouco mais velha, provavelmente já tínhamos
deixado Ouro Preto. Mas, era invariável: todas as vezes que papai nos levava à
sua alfaiataria na rua São José, ele nos abraçava muito contente, fazia festa.
E logo saía com a gente para comprar bala. O destino estava a alguns passos, na
mesma calçada, um pouco à frente: era o bar do Peret (este, o bar, resiste até hoje. O dono, Roberto Peret, deixou-nos no final de 2022). Ganhar essas balas era a coisa mais esperada
de nossos encontros com vovô.
Assim, meu avô me marcou pela sensibilidade e pela doçura. De um jeito que, muito provavelmente, nunca soube.
Maria Cristina Rietra Marzano
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| Luiz Marzano com as netas Maria Virgínia, Maria Cristina e Maria Regina (1970) |

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