sábado, 29 de abril de 2023

Crônica "Papai" - por Itália Marzano de Oliveira Souza




            AO QUERIDO PAPAI

 

Existe. Termino de receber uma carta dele. Interessante, só que agora encontra-se de molho, nos seus 75 anos de existência, convalescendo-se da operação de úlcera. Um homem que sempre vendeu saúde e agora vem dizer-me: sabe! meu coração é excelente, os pulmões também, e a pressão nem se fale.

Fecho os olhos e me encontro com ele, lá pelos anos de 1935 ou 36. Bebê como era, avistei-o descendo pela rua, não rua, um largo naquela cidade, povoado de Entre Rios, caminhava ao meu encontro carregando nos braços brancos, num cordão dois peixes dourados.

Era distração dos mineiros pescarem no rio lamacento aos domingos, esse francamente não o conheço.

Comemorava-se naquela ocasião as Bodas de Ouro do meu avô Moisés e avó Minervina e toda a família reuniu-se. Há uma fotografia quando tempos atrás, lá em Venda Nova, Vigário da Paróquia: Padre Matias mostrou-me a meninada junta, ele o Padre: um guri levado, fabricando assobios de barro.

Passou por nós crianças que ao lado das enxurradas, que a forte chuva entregou ao despedir-se, e toda turma com os pés nas águas lambuzentas, ajuntávamos barro para os assobios em forma de pássaros. Nesse povoado ele nasceu. Hoje por certo a cidade reluz, com certeza em vistas das novas instalações da luz moderna.

A avenida que outrora conjugava-se em carvalhos deve andar lisa e asfaltadazinha, ou pelo menos adornada. O casarão, segundo ouvi dizer, não saiu do lugar; sou capaz de encontrá-lo caso fosse vê-lo.

Nessa ocasião me envolveram de vestidinhos novos e meu faceiro pai me carregava e vaidoso mostrava a todos o meu sorriso e a covinha no canto da boca. Noutras horas o vejo com o Saxofone ou a Clarineta nos lábios em sopros alegres e ritmo ligeiro. Corríamos para vê-lo tocar.

Das festas da Bôda mal posso informar.

Ainda garota prestava atenção nas peraltices das crianças da minha idade, somente com um pormenor que ao ouvir o som do Saxofone, ia correndo ao encalço de Papai e das Músicas.

Hoje ele está de molho. Lamento que os anos modifiquem até maravilhas. Sei que não pode tocar e isso nos dói: a mim e a ele principalmente.

Noutras rodas, quando crescidinha, ficava ao seu lado ouvindo, ouvindo cousa alguma, sou presunçosa quem só quem era eu para ouvir, presenciando as mímicas, no caso então dele ao narrar para os amigos e pessoas da família as suas façanhas, anedotas e piadas.

Criança e minhas atenções voltavam-se para ele, quer nos Carnavais, quando no meio dos Blocos de camisa de lamê azulão e calça azul-marinho “Aurora” movimentava a sua Clarineta e apitos, custeando minutos e eram arremessados aos ouvidos dos Ouropretanos.

Nas Paradas Cívicas, comandando a Banda, nos coros das Igrejas de Ouro Preto e nos municípios vizinhos. Acompanhava-o posso testemunhar.

Lá no Alto da Cruz, Santa Efigênia, lá nas Cabeças, S. B. Jesus de Matozinhos, mesmo no morro de S. Sebastião, S. João, Santana.

Festa atrás de Festa e ele Maestrando sempre sorrindo, esquentando com uma Pituzinha no inverno marchando como bom soldado, bom patriota, bom filho da terra.

Não é caso para rir, mas hoje ele se encontra de “molho”.

Fui crescendo, e junto, minha admiração por ele e também afeto.

Toda emoção e comoção me envaidecia ao vê-lo tocando: quantas compenetrado, outras sirigaito e gaiato.

Quando nas Procissões Religiosas a frente me encontrava vestida de Anjo podia olhar para trás e acenar para ele. Lá se encontrava com a Bandinha. Quantas Composições de sua Autoria! Quantas.

Os versos de Professoras e Poetas chegavam às suas mãos para que ele fizesse as palavras estrilarem em contralto, soprano e em quantos sons existem.

Lembro-me que uma noite acordei e vi movimento pela casa. O que seria? De pés no chão fui caminhando devagarinho e curiosa. Calculem! A pobre da minha Mãe servindo cafezinho para os seresteiros da noite e da madrugada. Lógico que ela já havia escutado a serenata e todos os melados do Músico. Entendia os sintomas daquele coração apaixonado, eu que o diga.

Os acordes daquele Saxofone nunca me enganaram, e os chorinhos da Clarineta, muito menos.

Evidente: Desse amor, dessas serenatas, 21 rebentos, já pensaram? Fora os arranjos e os ensaios.

Não estou aqui para pilheriar, mas recordá-lo, recordar o Saxofonista querido de muitos, de todos, que apenas não cativava com suas músicas, mas pelo coração excelente, o mesmo coração de ontem e de hoje.

Peço a Deus confortá-lo, que não deixe que no seu âmago crie a angústia. Para quem viveu alerta ao trabalho, para quem quis e quer viver: criando e agora sentir-se de “molho”.

Querido Pai, não há de ser nada – o importante é que o senhor existe e nós o amamos muito.

 

 

                                                                       Itália Marzano de O. Souza

                                                                       Três Corações   -   11/09/1972

 

(Texto digitado a partir do original, escrito e datilografado por Itália, filha de Luiz Marzano, em 1972, pouco menos de oito meses antes do falecimento do Maestro.) 








 

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