quarta-feira, 26 de abril de 2023

A família Trópia Marzano

             Os relatos ouvidos de nosso pai e de nossos tios nos fazem acreditar que a vida não foi muito fácil para aquela família numerosa.

As dificuldades financeiras sempre acompanharam Luiz Marzano em sua vida profissional; sua família mudava constantemente de casa, sempre que havia um aumento de aluguel ou que o proprietário decidia não mais alugar o imóvel.

Quanto a essa questão da moradia temos conosco duas narrativas muito interessantes, que aqui passamos a contar.

Em seu livro de memórias, Yone Tropia Bittencourt, sobrinha de Luiz Marzano e Maria José, lembra-se de quando aquela família morou no sobrado construído no local onde antes se situava a casa onde morou Tiradentes, hoje abrigando a Associação Comercial de Ouro Preto.  Ela se recorda: “Eu tinha horror de ir até lá, pois os meus irmãos diziam que, quando eu passasse no corredor, o Tiradentes iria me agarrar; por isso, quando eu chegava na porta, gritava por minha tia e subia a escada embalada” (Tavares, Ana Regina Bittencourt. Recordações – Yone Tropia Bittencourt. Belo Horizonte: 3i Editora, 2013).

A outra - uma das muitas histórias narradas pelo meu pai, Petronio  - dizia respeito a uma das mudanças que iriam empreender. Para realizá-la, os jovens moços da família fizeram-se valer de carrinhos de mão (de construção) com os quais carregavam os pertences. Após inúmeras viagens, que demandaram grande esforço por conta das ladeiras de Ouro Preto, sua mãe tomou a decisão de não querer mais se mudar para aquele novo local, fazendo-os retornar com tudo o que já havia sido transportado!... Segundo ele, a mãe teria ficado sabendo que uma outra mulher, suposta amante do marido, teria visitado a casa antes dela!

A partir de 1949, tendo Luiz Marzano Filho recebido seu pagamento pelo trabalho desenvolvido durante um ano na Serra do Navio, no Amapá (seu primeiro emprego após a formatura como engenheiro pela Escola de Minas de Ouro Preto), este adquiriu uma casa na Rua do Pilar e a cedeu para que seus pais e irmãos ali residissem. Ali permaneceram até 1962, quando Luiz Marzano Filho construiu uma residência à Rua Antonio de Albuquerque onde foram morar seu pai e seus irmãos mais novos, visto que sua mãe, Maria José Tropia, falecera recentemente.

Luiz Marzano talvez não fosse o exemplo de um marido exemplar e caseiro, “trabalhava o dia inteiro na sua alfaiataria com lojinha anexa; gostava de compartilhar momentos em ‘jazz-band’ com amigos e parentes”... e era seresteiro  (Luiz Marzano Filho em “O Velho Teimoso: Um sonho...o Éden III”, p.121-123).

A nós, netos, pouco era dado a conhecer sobre sua vida social e boêmia, mas hoje compreendemos melhor o porquê de algumas valsas por ele compostas serem dedicadas a outras mulheres.

Entretanto, sejam movidos pela compreensão ou pelo respeito, os filhos sempre se referiram a ele com palavras carinhosas. Luiz Marzano Filho, em suas três obras autobiográficas que muito nos auxiliam nessa reconstrução biográfica de Luiz Marzano, por diversos momentos reconhece no pai uma pessoa possuidora de “bom coração, elevado astral e de fácil meio de comunicação... que não era perfeito, mas nunca deixou de cuidar da família... com carinho, conselhos saudáveis e assistência completa ao lar” (em “O Velho Teimoso: Um Sonho... o Éden III, p.121, 122).

Em “Um Sonho... o Éden”, nas páginas 106 e 107, Luiz Marzano Filho nos fala também do pai amoroso e cuidadoso com a formação dos filhos, tendo inclusive recusado trabalho em Belo Horizonte, num momento de maior dificuldade financeira, pois acreditava que os filhos teriam maior oportunidade de estudo na cidade de Ouro Preto, o que veio a concretizar-se, com a formação de três de seus filhos em Engenharia pela então Escola de Minas de Ouro Preto.

Já a sua Maria era caseira. “viveu exclusivamente do lar para a igreja, da igreja para o lar” (Luiz Marzano Filho, idem, p. 105 e 106). Mantinha grande amizade e cumplicidade com sua cunhada Adelina, casada com Salvador Tropia. As duas eram companheiras também em seu modo de ser, reservadas – embora sempre com um sorriso no rosto – devotas à religião (frequentando diariamente a igreja) e a seus lares, onde se esmeravam no cuidado com os filhos e com a alimentação da família, preparando deliciosas macarronadas.

 “Lembro-me de minha mãe sempre ajoelhada, quer na igreja ou no seu quarto, a fazer suas orações, em tom baixinho, como se a pedir pela felicidade e saúde de todos os seus entes queridos e, ainda, talvez, que a boemia do seu querido esposo se abrandasse” (Luiz Marzano Filho,idem, p. 106)

Ambos, Luiz e Maria José, embora não tivessem mais que o “Ensino Primário” na época, procuraram incentivar os filhos a estudarem, o que na época não era muito comum às famílias. Luiz Marzano, com seu espírito livre e arrojado, gostava de ler, conversar e se informar com pessoas cultas,  e transmitir valores que prezava para seus filhos.

Formaram uma família feliz e unida. Hoje são muitos os descendentes de seus sete filhos que chegaram à idade adulta. Voltaremos a esse assunto em outra postagem.




Luiz Marzano em foto de 1929


                                                    

       


Maria José Tropia



                                                                                




Luiz Marzano, em foto de 1966, ao lado dos sete filhos, da esquerda para direita:
Vinicio, Petronio, Luiz, Lygia, Vicente, Maria da Conceição, Luiz Filho e Itália







Entrelinhas: as Linhas da Costura

   O jovem Luiz Marzano encontrou apoio e trabalho junto à alfaiataria do Sr. Antonio Cristino, tornando-se aprendiz de alfaiate. Foi então que começou a dar uma nova direção à sua vida. A alinhavar e a costurar um novo futuro, a pregar botões e novas certezas, a aprender novos caminhos.

    Foi com sua lida como alfaiate que Luiz Marzano sustentou, posteriormente, sua família que – como muitas naqueles anos – foi bastante numerosa.

    Luiz Marzano Filho (em sua obra “O Velho Teimoso: Um Sonho...o Éden III”, p.122), relata que seu pai – após se casar com Maria José Trópia, em 1915 -  foi residir com a esposa no município de Conselheiro Lafaiete, então Distrito de Queluz, onde foi trabalhar na “Alfaiataria do Sr. Joubert”.

    Posteriormente, chegou a abrir naquele local sua própria loja, “na parte baixa, próximo ao Rio Bananeiras”. Encontramos registro de Luiz Marzano como Alfaiate, autônomo, em Queluz  já a partir do ano de 1915.(http://memoria.bn.br/DocReader/Hotpage/HotpageBN.aspxbib=313394&pagfis=117199&url=http://memoria.bn.br/docreader#)

    Em 1919 chegamos a encontrar alguns anúncios nos jornais “O Lafayettense” e “A Voz do Povo”, do município de Conselheiro Lafaiete de sua então “Alfaiataria Paris”, situada primeiramente na Rua Marechal Floriano e, posteriormente na Rua Dr. Campolina, ambos destacando sua “confecção esmerada” e seus “preços módicos”.

    Retornando a Ouro Preto, possivelmente ainda em 1919, após o nascimento de seu segundo filho, Vicente, inaugurou ali sua “Alfaiataria Moderna”.

    Como alfaiate nessa cidade, ampliou sua clientela e seus serviços, inclusive de confecção de uniformes militares. Segundo relato de Vinicio Marzano, “era praticamente o único a confeccionar uniformes” para os integrantes do 10º Batalhão de Caçadores do Exército Brasileiro, que é instalado em Ouro Preto a partir de 1922.

    Pelo menos dois de seus filhos, Vicente e Luiz Marzano Filho, auxiliaram o pai na oficina. Luiz Marzano teve também outros grandes parceiros, com quem compartilhava seu trabalho, dividido em etapas (modelagem, corte dos tecidos, costura e acabamento), sendo o Sr. Porfírio Guimarães citado pelo filho Luiz como um dos sócios do pai em sua época mais promissora como alfaiate. 

    Lygia Marzano, sua filha mais nova, que permaneceu residindo com o pai até seu falecimento, em 1973, recorda-se que o pai compartilhava seu conhecimento de alfaiataria, inclusive com alfaiates da capital, Belo Horizonte, ensinando a todos que lhe pediam, suas técnicas.

    Em seu período mais propício, a partir de 1935, a Alfaiataria Moderna esteve situada no início da Rua Conde de Bobadela (Rua Direita) onde, ainda segundo Luiz Marzano Filho, “pela primeira vez”, seu pai “conseguira comprar, reformar e reunir o ambiente do seu ofício com o do lar” (O Menino Travesso: Um Sonho...o Éden II, p. 31). Mas este período teria durado poucos anos.

    Também segundo Luiz Marzano Filho -  desta vez em sua obra “Um Sonho ... o Éden”, de 1988, p. 107 -  “por ocasião da Segunda Guerra, com a remoção do 10º BC para a orla marítima...seu pai teria sido obrigado a desfazer a sociedade que mantinha com seu grande amigo, Porfírio Guimarães, e a demitir alguns de seus oficiais alfaiates, para o que foi necessário vender a única casa que conseguiu possuir e usufruir por apenas três anos”.

    Apesar das dificuldades, Luiz Marzano parecia sempre encontrar formas criativas para persistir. É ainda seu filho Luiz que relata que, nessa mesma época da Segunda Grande Guerra, ele “cismou” em fabricar giz de alfaiate, já que o produto – anteriormente importado da França – começou a faltar no mercado.

    “Com a orientação e ajuda do professor de Química da Escola de Minas, Francisco Pignatari, após alguns meses de experimentos e ensaios diversos, conseguiu alcançar a fórmula definitiva e satisfatória ao uso próprio, misturando argilas, tintas e outros ingredientes, utilizando aparelhos e estampa idealizados por si mesmo. Montou, em seguida, uma indústria caseira, pequena” e começou a atender também alfaiates de outras cidades (Marzano Filho, Luiz . Um Sonho... o Éden. P. 109).














O Gordo e o Magro

             Paralelamente à alfaiataria, Luiz Marzano manteve sempre uma loja de tecidos e afins, como cobertores, outras confecções,etc. Procurava se manter atualizado, “comprava revistas de moda masculina, comuns na época, para adquirir conhecimentos dos novos modos de corte e costura e, depois de aprendê-los, procurava transmiti-los aos seus oficiais e mesmo aos concorrentes" (Marzano Filho, Luiz . Um Sonho... o Éden. P. 109).

            Seu último endereço comercial foi o da Rua São José, número 83. São desse lugar, impregnado de lembranças e saudades, as melhores memórias desse avô.

            Ali ele trabalhava, ali ele atendia seus clientes, sempre com bom humor e disponibilidade para uma conversa.

            Se você nasceu em Ouro Preto, há alguns anos atrás, há de se lembrar dos seus manequins. Seus famosos manequins, e Oliver Hardy e Stan Laurel  – o Gordo e o Magro. Foram admirados e fotografados incontáveis vezes, por ouropretanos, por curiosos, por turistas e até mesmo por artistas que passaram por aquela calçada da Rua São José.

            Tanto é verdade que uma foto da Alfaiataria Moderna, com seus manequins à porta foi parar no Metropolitam Museum of Arts, em Nova Iorque. A referida foto foi tirada em 1956, por Esther Bubley, um dos ícones da história da fotografia e fotojornalismo que, passando em Ouro Preto durante uma viagem a trabalho pela América Latina, capturou um momento especial e mágico, reunindo dois outros homens aos bonecos, os quatro voltados a olhar uma mulher que passava na calçada.

            O grande pintor e artista Alberto da Veiga Guignard, que residiu em Ouro Preto nos seus últimos anos de vida, também se deixou flagrar pela câmera à porta da Loja Marzano, em companhia e diálogo com os manequins de Luiz Marzano.

            Após o falecimento de Luiz Marzano, em 1972, sua filha caçula, Lygia, continuou à frente da Loja Marzano por aproximadamente mais 30 anos.


                                                                                 



Luiz Marzano e seus manequins 1971

   


Luiz Marzano entre seus famosos manequins






Guignard à porta da Alfaiataria Marzano





Guignard saindo da Alfaiataria e Loja Marzano







Fotografia realizada por Esther Bubley em 1956

 
    

Luiz Marzano e as linhas da pauta

          

            Lá de muito longe, de um outro tempo, de uma entrevista que concedeu a Maria do Carmo Corrêa[1] para o Informativo Ouro Preto, em março de 1969, Luiz Marzano em pessoa nos conta como foi que as linhas da pauta musical começaram a se entrelaçar com as linhas do ofício de alfaiate em sua vida:

            “No exército, com pequeno conhecimento de música, muito esforço próprio e ajuda de colegas, ingressei-me na banda militar do 10º Batalhão de Caçadores, onde tocava clarineta. Isto foi um grande estímulo e um grande passo em minha vida. Já conhecia muitos músicos da época, e daí comecei a compor pequenas valsas, que executava nas serestas.”

         Esse ingresso no mundo musical faria de Luiz Marzano um homem diferente, pois foi através da música que ele pôde expressar da melhor maneira possível sua alma livre e criativa, foi através dela que ele pôde também realizar feitos que o tornaram conhecido e valorizado por seus conterrâneos.

          Sua carreira musical foi muito rica e podemos dividi-la, apenas para fins de uma análise mais objetiva, em três vertentes: a do compositor, a do regente de banda e a do músico ou instrumentista das antigas serestas e bailes sociais de Ouro Preto.

      Como compositor, sua obra – que hoje nos surpreende por sua extensão quando começamos a pesquisá-la e a divulgá-la – não chegou a ser muito conhecida fora de um círculo restrito à família e a alguns setores da comunidade ouropretana (bandas de música e alguns ramos da Igreja Católica).

         A partir da pesquisa e organização de manuscritos, recolhidos e preservados de maneira especial por um de seus filhos, Vinicio Marzano, e de outras buscas junto à Sociedade Musical Bom Jesus de Matozinhos e memórias familiares, chegamos a compilar duas dezenas de composições, a saber: 11 valsas, 3 marchas, 2 sambas, 1 serenata, 1 hino religioso, 1 hino cívico e 2 dobrados para banda.

             Analisando suas composições nos aspectos de forma e harmonia, podemos perceber que a maioria de suas valsas possui três partes, sendo que as duas primeiras estão em modo menor e a última parte, algumas vezes chamada de Dueto ou Trio, estão escritas em modo maior. As marchas e sambas possuem somente duas partes.

       Quanto à harmonia predominam os acordes de tônica, dominante com sétima e subdominante. Enquanto copiávamos suas melodias manuscritas para o programa de edição de partituras, pudemos observar seu cuidado com a escrita musical, principalmente as ligaduras de expressão. Acreditamos que, por tocar um instrumento de sopro, era muito importante grafar as frases musicais e “suas respirações”.

            A maioria de suas melodias foi escrita sem acompanhamento, mas nas partituras de “Lágrimas no Deserto”, “Coração que Dorme” ou “Miss Ouro Preto” que foram editadas e publicadas por Irmãos Vitale, observa-se um cuidado na escrita do acompanhamento para piano: variações de baixo e muitos contracantos que criam pontes e enriquecem a melodia. Acreditamos que, com sua prática como maestro, Luiz Marzano compunha pensando nos diferentes acompanhamentos que os instrumentos da banda faziam. Não seria possível tocar suas melodias sem considerar a riqueza de timbres dos diferentes instrumentos, com seus fraseados e alturas, contribuindo para a interpretação de cada peça por ele escrita.

            Apesar de obras de construção relativamente simples, muitas nos surpreendem pelas melodias. Possivelmente por ser um clarinetista e ter composto basicamente para esse instrumento ou similares, de sopro, algumas de suas melodias tomam formas inebriantes e vibrantes em sentimento e alcance da alma. São pungentes, dolorosas, algumas apaixonadas. Outras nos fazem vibrar e parecem ser até conhecidas, aquelas músicas que depois de ouvidas, nos acompanham para sempre na memória musical (vide o Hino a Nossa Senhora do Pilar, de Ouro Preto, e o Dobrado “José Ovídio Fortes”).

            De todas elas, somente seis foram impressas e publicadas: as valsas “Coração que Dorme”, “Diva” e “Lágrimas no Deserto”; a marcha carnavalesca “Despedida de Pierrot”, o “Hino à Bandeira da Inconfidência” e a marchinha “Miss Ouro Preto”, essa última em 1930, dedicada a Srta. Adésia Toffollo, “no auge da revolução e da eleição de Miss Brasil”. (idem, entrevista citada acima)

            “Coração que dorme”, citada acima, foi sua composição mais divulgada e conhecida. Ainda na entrevista concedida à Maria do Carmo Corrêa, Luiz Marzano relata:

“cheguei mesmo a ouví-la transmitida por uma rádio da Argentina e também pela Rádio Nacional do Rio de Janeiro, quando ela era apresentada como prefixo de um programa romântico da Rádio Bandeirante de São Paulo. Esta música, escrevi-a numa noite de muito cansaço e trabalho. Didi (Geraldino Dias Filho) foi quem a exibiu, pela primeira vez, com a orquestra do Cinema Central, arrancando do público ruidosos aplausos”.

Algumas obras como a Valsa “Ione”, três choros (“Arranca Tôco”, “Bagaceira” e “Ostenzik no choro”), alguns dobrados e hinos, citados por Luiz Marzano também na entrevista referida acima, permanecem por nós desconhecidos.



[1] Maria do Carmo Corrêa , musicista mineira, contrabaixista na Orquestra Sinfônica Mineira, foi para a Bahia na década de 1950 onde trabalhou em projetos na UFBA e na Orquestra Sinfônica daquele estado. Identificamos também que Maria do Carmo atuou juntamente com Georges e Ana Maria Vincent, formando um trio dedicado à performance de música antiga, e que participou também do Grupo de Música Antiga da UFMG, possivelmente após retornar à Belo Horizonte após sua aposentadoria.





Hino da Coroação Pontifícia de Nossa Senhora do Pilar de Ouro Preto

             Uma composição de Luiz Marzano requer nossa atenção de uma maneira mais demorada e cuidadosa.

            Trata-se do Hino da Coroação Pontifícia de Nossa Senhora do Pilar de Ouro Preto.

     Afinal, mesmo que na contemporaneidade muitos ouropretanos sequer tenham conhecimento a respeito do Maestro Marzano, a quase totalidade daqueles que perseveram nas tradições religiosas da cidade, de modo particular na Paróquia de Nossa Senhora do Pilar, conhecem “de cor e salteado”, como se costuma dizer por lá, esse hino por ele composto.

           Sob a regência dos maestros da Banda do Rosário, sob todos aqueles que sucederam Luiz Marzano até a presente data, os músicos executam o hino dolente e vigoroso, a cada final de procissão de Nossa Senhora do Pilar, enquanto sua linda imagem em madeira entalhada entra pelas portas da basílica e os fiéis cantam com emoção e fé, repetindo entre os versos da música, as orações sugeridas pelo pároco.

            “Salve, oh Mater singular, Padroeira vitalícia de Ouro Preto secular que com a coroa pontifícia maior que a do soberano vem a fronte te adornar. Ó, Mãe dos ouropretanos, ó Senhora do Pilar!”






        Luiz Marzano compôs esse hino em 1963 por ocasião especial da elevação e consagração de Nossa Senhora do Pilar como Padroeira Pontifícia da cidade de Ouro Preto pelo então Papa João XXIII. Quem escreveu sua letra foi Hermínio Barbosa, parceiro de Luiz Marzano em outras composições, como “Miss Ouro Preto” e “Coração que Dorme”, esta última sua valsa mais conhecida.[1]





            Sobre o hino há um interessante artigo que procura estabelecer um diálogo entre aspectos da letra do mesmo e a representação arquitetônica da Basílica do Pilar, intitulado: “O Hino ‘Salve ó
Mater Singular”, expressão da comunicação simbólica das artes na Basílica de Nossa Senhora do Pilar da Cidade de Ouro Preto MG”,
escrito por Maria da Consolação Anunciação e Maria Agripina Neves, publicado no site ouropreto.com.br (disponível em: https://www.ouropreto.com.br/secao/artigo/o-hino-salve-o-mater-singular-expressao-da-comunicacao-simbolica-das-artes-na-basilica-de-nossa-senhora-do-pilar-da-cidade-de-ouro-preto, acessado em 02 de fevereiro de 2023).



 

                                                                         

Para acessar a partitura em formato pdf, clique no endereço abaixo:

https://drive.google.com/file/d/1ZfVaStPx8Sn5i6-yMlyviyFS5SOaXyZH/view?usp=share_link                         



[1] Em entrevista concedida a Maria do Carmo Correa  para o Informativo Ouro Preto, em março de 1969, Luiz Marzano mencionaria Hermínio Barbosa como possível letrista de sua então mais nova composição, a valsa “Rosa na Sombra”. Desconhecemos a existência dessa letra.

O regente inesquecível

 



              A vivência no universo das bandas de música também se iniciou precocemente. Depois de experiência inicial na banda do 10º Batalhão de Caçadores em Ouro Preto, Luiz Marzano, residindo em Queluz (atual município de Conselheiro Lafaiete) nos anos de 2015 a 2019, participou da Banda de Santa Cecília, ao lado de Antonino de Giuseppe Fázio, clarinetista casado com sua prima, Maria Tereza Marzano. É o que nos relata Luiz Marzano Filho (em “O Velho Teimoso: um Sonho...o Éden III, à página 122).

        Ainda em breve notícia encontrada no jornal “A voz do povo”, de julho de 2020, do município de Conselheiro Lafaiete, consta o nome de Luiz Marzano como membro da diretoria da Corporação Musical do Centro Operário, como segundo secretário, o que nos permite deduzir que deu continuidade à sua participação como músico de banda naquela cidade, mesmo após se mudar para Ouro Preto.





Em Ouro Preto, tocou inicialmente na Banda de Santa Cecília, juntamente com seu cunhado Salvador Tropia (também clarinetista), sob a regência de Ítalo Constantino (Tavares, Ana Regina Bittencourt. Recordações – Yone Tropia Bittencourt. Belo Horizonte: 3i Editora, 2013, p. 25). Vinicio Marzano, seu fiho, lembra recorda-se também de outros companheiros de Luiz Marzano, nessa atividade: Mário Fialho, Antonio de Brito e Pedro Gonzaga, entre outros.

Logo, entretanto, faria sua adesão à Sociedade Musical Bom Jesus de Matozinhos, em Ouro Preto, inicialmente na qualidade de músico. É dessa época outro “recorte” de jornal, dessa vez “A Tribuna do Povo”, de Ouro Preto, em que é mencionado como clarinetista, responsável pelo solo de uma das músicas da Banda, em concerto no Largo da Alegria na noite do dia 29 de junho de 1947.




 

            Luiz Marzano Filho, em sua obra “Um Sonho... o Éden” (p. 110), relatou que Luiz Marzano tornou-se depois supervisor e maestro dessa mesma Banda, a convite do presidente da Sociedade Musical, o farmacêutico José Ovídio Fortes, a quem, inclusive, dedicaria um dos dobrados que compôs e que até a atualidade é executado com freqüência pela mesma Banda.

            A Sociedade Musical Bom Jesus do Matozinhos é também conhecida como “a Banda do Rosário”, devido a localização de sua sede à rua Getúlio Vargas, no bairro Rosário, em Ouro Preto. Foi fundada em 1932 por Franklin Amâncio dos Santos, Temístocles Correia de Magalhães e Cândido Simplício Marçal. 





Tendo o Maestro Marzano à frente, nas décadas de 1950 e 1960, colecionou memoráveis momentos de brilhantismo e reconhecimento.

Apresentava-se não somente em Ouro Preto, mas também em outros municípios da região, como Mariana, Entre Rios de Minas ou Belo Horizonte, tendo se classificado neste local em primeiro lugar no festival promovido pela Rádio Itatiaia no ano de 1957.

            Sobre a participação da Sociedade Musical Bom Jesus de Matozinhos nesse Festival, Luiz Marzano comenta um fato pitoresco, em entrevista concedida a Maria do Carmo Correa (1962):

            “Por ocasião de um dos concursos de bandas de música do interior, realizados em Belo Horizonte, muito embora não estivéssemos preparados, aceitamos o convite para concorrer com a banda de música “Bom Jesus de Matosinhos”, mais com espírito de colaboração e esportividade. Acontece porém que, no dia da prova, em Belo Horizonte chovia a cântaros e nós envergávamos um velho uniforme de blusa cáqui e calça branca, destoando completamente das outras corporações que se apresentavam com belos uniformes. Pelas ruas, a passagem dos carros enlameava a nossa roupa e, por azar, o certame realizou-se ao ar livre, na Praça da Liberdade. Ali “o vento era de morte” e a praça se apresentava às escuras, pois faltava luz naquela noite. A primeira partitura colocada em minha estante logo no início do primeiro número, foi arrancada pelo vento para o meio do jardim. Agüentei a mão durante a introdução que eu sabia de cor. Porém, note-se a minha apertura na seqüência da música que eu não tinha decorado. Mas, felizmente a partitura foi recuperada e salvou minha situação de responsável pela boa execução da peça. Ao término do concurso, ovacionados e classificados vencedores, resolvemos fazer uma visita de conterrâneos à família do Dr. Alberto Caram, e este nos ofereceu um coquetel no bar da esquina. Aí, foi um trago só...”

No acervo fotográfico da Banda do Rosário encontramos reminiscências do Maestro Marzano, à frente ou ao lado dos demais componentes da banda, em desfiles, e até à frente do Cristo Redentor (em provável apresentação da Corporação na cidade do Rio de Janeiro no ano de 1959).

A quase centenária Banda do Rosário preza também por ter tido brilhantes maestros à sua frente, como Francisco Solano e Odilon Villas Boas, pelos quais guarda um carinho especial. Na atualidade está sob regência do Maestro João Paulo Moura.

 Luiz Marzano foi também um deles. Mas o carinho, nesse caso, foi recíproco: foi para a Banda e por causa dela, que o Maestro compôs alguns dobrados e hinos que não deixam de encantar o povo, quando este – fazendo parte do cortejo, seja em procissões, seja em comemorações cívicas – ainda se emociona e vibra com o toque dos instrumentos pelas ruas.


Outras incursões pelas linhas da pauta

 

       Salvador Trópia, cunhado de Luiz Marzano, irmão de sua esposa Maria José Trópia Marzano, tinha um sonho: ter uma sala de cinema em Ouro Preto. Naquela cidade, desde os primeiros anos do século XX já funcionavam algumas salas de cinema (Cine Estrela do Sul e Cine Brasil).

Em 1926, Salvador vendeu seu armazém e adquiriu uma sala de propriedade do Sr. Joaquim de Oliveira, instalada provisoriamente no Teatro Municipal (Casa da Ópera). Posteriormente, comprou um prédio na então Rua Tiradentes, nº 17, reformou-o e adaptou-o para cinema. Nasceu ali o Cine Central. (Tavares, Ana Regina Bittencourt. Recordações – Yone Tropia Bittencourt. Belo Horizonte: 3i Editora, 2013, p. 107 e 108).

Até 1927, quando foi lançado, em Nova Iorque, o primeiro longa metragem sonoro, “O Cantor de Jazz” (The Jazz Singer), do diretor Alan Crosland, no qual as falas e o canto gravados em um disco de acetato eram sincronizados com a projeção das imagens do filme, o cinema era um espetáculo mudo.

Essa novidade demorou a chegar ao interior de Minas. E no Cine Central, como na maioria das salas de cinema, havia a cada sessão a execução de músicas, tocadas por alguns instrumentistas, que procuravam – modulando gêneros musicais e andamentos – acompanhar as cenas dos filmes que eram projetados nas telas, tornando a experiência do cinema mais completa.

Vinício Marzano nos relata que Luiz Marzano, juntamente com seus cunhados Salvador, José e Joãozinho Trópia, e sobrinhas,filhas de Salvador (Rosa, Eunice e Geralda) tocava na orquestra do cinema, pelo menos até o ano de 1929.

Aprimorando cada vez mais sua técnica na clarineta e saxofone, além de seu conhecimento geral em termos musicais, Luiz Marzano – além da atividade nas bandas, às quais nos referimos anteriormente – fazia igualmente parte de conjuntos musicais que tocavam por ocasião de festas religiosas em diversas igrejas de Ouro Preto.

Por outro lado, seu espírito livre e arrojado o fez também participar de conjuntos de “Jazz-band”, tocando em festas, bailes sociais e carnavalescos. Em postagem realizada recentemente (28 de agosto de 2018) em página de rede social do Festival “Tudo é Jazz” (disponível em https://www.facebook.com/profile/100067515433171/search/?q=Luiz%20Marzano), Luiz Marzano é citado como um dos músicos que constituíram o grupo de Jazz-Band Vila Rica, em 1959.

Entretanto, há registros anteriores de sua participação em diversas bandas que animavam bailes e carnavais ouropretanos, já a partir da década de 1930, sejam na Associação Comercial, no Centro Acadêmico da Escola de Minas de Ouro Preto, no Clube Quinze de Novembro, ou no Clube dos Lacaios. Uma fotografia da banda “Paulo e seu Ritmo”, tradicional em Ouro Preto por esses anos, mostra Luiz Marzano como um de seus integrantes.






Luiz Marzano Filho, em seu livro “Um Sonho... o Éden”, p. 108, cita ainda a participação do pai no conjunto “Marinheiros do Ar-Marinho” (fazendo menção à sua profissão como alfaiate) até seus últimos anos de atividade profissional. Com o pai, chegaram a tocar alguns de seus filhos, inclusive Petrônio, em instrumentos de percussão. Vários de seus netos se recordam de vê-lo no palco, animando o baile, enquanto dançavam nos clubes ouropretanos.

Para além dos bailes, Luiz Marzano tinha uma paixão pelas tradicionais serenatas. Até hoje é lembrado por alguns ouropretanos como seresteiro, ao lado de companheiros como Zé Murta, Lamparina, Joaquim de Brito, Sô Gê e, inclusive, de um de seus filhos, Vicente, que se mudou ainda jovem para Belo Horizonte. (segundo relato de Vinicio Marzano, outro de seus filhos). Luiz Marzano Filho nos relata que seu pai, com bom humor, dizia que gostava de tocar nas partes mais altas da cidade, para que toda a população ouropretana o pudesse ouvir. (Luiz Marzano Filho em seu livro: “Um Sonho... o Éden”, p. 109)

Dos sete filhos de Luiz Marzano e Maria José Tropia que chegaram à idade adulta, Vicente Marzano - apesar de ter aprendido o ofício de alfaiate - foi o único que se dedicou quase que integralmente à carreira musical.

Assim como seu pai, autodidata e apaixonado pela música, dedicou-se ao violino e exerceu sua atividade como músico inicialmente nas Rádios Guarani e Inconfidência, em Belo Horizonte, além de tocar em restaurantes e casas noturnas. Posteriormente, foi convidado para membro da Orquestra Sinfônica da Polícia Militar de Minas Gerais, quando de sua formação (1948), onde tocou viola e violino. (Homem, Fernando Pacífico As influências do Maestro Sebastião Vianna no cenário musical erudito de Belo Horizonte / Fernando Pacífico Homem. _Salvador, 2013, p. 131 e 173).

Luiz Marzano, “sempre procurando uma distração nas horas disponíveis”, segundo relato de seu filho Vinicio Marzano, também iniciou em 1948 a confecção de palhetas para instrumentos de sopro (clarineta e saxofone), utilizando-se da cana do reino que crescia no quintal de sua casa. Construiu uma pequena oficina neste mesmo quintal, onde as confeccionava, fornecendo-as para muitos músicos e comerciantes da região, inclusive a "Casa Marcatto", em Belo Horizonte, ainda existente, e na época referência como local para aquisição e conserto de instrumentos musicais variados.

 



Luiz Marzano tocando ao lado de Silvio Caldas, José Benedito Neves (na ocasião prefeito de Ouro Preto) e Wilson Frade - julho de 1965




A história continua...

    Por causa destes feitos, aqui relatados, e muitos outros, Luiz Marzano foi ficando conhecido, particularmente na cidade de Ouro Preto e região. Conhecido e estimado. Tanto foi, tanto fez, que em 23 de outubro de 1967 o então prefeito de Ouro Preto, Genival Alves Ramalho, através da lei numero 194 dispôs sobre a concessão de título de cidadão ouropretano a Luiz Marzano. Assim, aquele jovem que deixou um dia sua terra natal, foi efetiva e publicamente acolhido na casa que um dia escolhera morar. O texto da lei é bonito, e traz em si uma forte marca democrática: “O povo do município de Ouro Preto, por meio dos seus representantes, decretou (...) conceder o título de Cidadão Honorário Ouropretano ao Sr. Luiz Marzano, natural de Entre Rios de Minas” 

    Luiz Marzano foi, na verdade, um homem que mereceu essa congratulação. Nele muitos reconheceram “o senso de honestidade; o respeito ao próximo independentemente do sexo, raça ou faixa etária; o amor ao trabalho; o espírito de solidariedade dentro de uma comunidade, e acima de tudo o amor ao país em que nascemos e fomos criados, que é o melhor país do mundo” (como descreveu Luiz Marzano Filho, em seu livro “Um Sonho... o Éden”, p. 110). Diríamos ainda mais: foi um homem com um olhar aguçado e voltado para o futuro, atento às notícias e novidades, bom companheiro na conversa (seja no bar, na boemia ou no seu balcão de trabalho), sensível em sua interpretação do mundo e amoroso com a vida e com os que lhe cruzaram o caminho. 

    Por essas razões, em 02 de maio de 1973, “Ouro Preto recebeu consternada a notícia do falecimento do mestre Luiz Marzano. E, com sua morte, calou-se a harmonia suave das noites enluaradas de Ouro Preto” (idem acima). Entretanto...Uma boa história nunca chega ao fim. E essa, a história de Luiz Marzano, não será diferente. Ainda mais com o auxílio carinhoso de Maria José Trópia. Sua descendência está aí para recontá-la, retomá-la e fazê-la continuar. 

    Por isso idealizamos neste abril de 2023, bem próximo à data que marca os 50 anos de falecimento de Luiz Marzano, um evento especial que reacenda sua história, trazendo à memória – não só dos familiares, mas de todos os ouro-pretanos e cidadãos do mundo – fatos de sua vida como alfaiate, músico, compositor e regente de banda. Este blog nasce no cerne dessa iniciativa. Além dessa breve biografia, compilamos aqui suas obras musicais, compartilhando suas composições (as que conseguimos, em nossa pesquisa e coleta, localizar) com o público interessado em conhecê-la e interpretá-la. Esperamos que gostem. 










Luiz Marzano rodeado por filhos e netos - Ouro Preto/1966




Logotipo do Evento "Luiz Marzano : Entrelinhas"
Criação: Tiago Silva e Santana