quarta-feira, 26 de abril de 2023

Luiz Marzano e as linhas da pauta

          

            Lá de muito longe, de um outro tempo, de uma entrevista que concedeu a Maria do Carmo Corrêa[1] para o Informativo Ouro Preto, em março de 1969, Luiz Marzano em pessoa nos conta como foi que as linhas da pauta musical começaram a se entrelaçar com as linhas do ofício de alfaiate em sua vida:

            “No exército, com pequeno conhecimento de música, muito esforço próprio e ajuda de colegas, ingressei-me na banda militar do 10º Batalhão de Caçadores, onde tocava clarineta. Isto foi um grande estímulo e um grande passo em minha vida. Já conhecia muitos músicos da época, e daí comecei a compor pequenas valsas, que executava nas serestas.”

         Esse ingresso no mundo musical faria de Luiz Marzano um homem diferente, pois foi através da música que ele pôde expressar da melhor maneira possível sua alma livre e criativa, foi através dela que ele pôde também realizar feitos que o tornaram conhecido e valorizado por seus conterrâneos.

          Sua carreira musical foi muito rica e podemos dividi-la, apenas para fins de uma análise mais objetiva, em três vertentes: a do compositor, a do regente de banda e a do músico ou instrumentista das antigas serestas e bailes sociais de Ouro Preto.

      Como compositor, sua obra – que hoje nos surpreende por sua extensão quando começamos a pesquisá-la e a divulgá-la – não chegou a ser muito conhecida fora de um círculo restrito à família e a alguns setores da comunidade ouropretana (bandas de música e alguns ramos da Igreja Católica).

         A partir da pesquisa e organização de manuscritos, recolhidos e preservados de maneira especial por um de seus filhos, Vinicio Marzano, e de outras buscas junto à Sociedade Musical Bom Jesus de Matozinhos e memórias familiares, chegamos a compilar duas dezenas de composições, a saber: 11 valsas, 3 marchas, 2 sambas, 1 serenata, 1 hino religioso, 1 hino cívico e 2 dobrados para banda.

             Analisando suas composições nos aspectos de forma e harmonia, podemos perceber que a maioria de suas valsas possui três partes, sendo que as duas primeiras estão em modo menor e a última parte, algumas vezes chamada de Dueto ou Trio, estão escritas em modo maior. As marchas e sambas possuem somente duas partes.

       Quanto à harmonia predominam os acordes de tônica, dominante com sétima e subdominante. Enquanto copiávamos suas melodias manuscritas para o programa de edição de partituras, pudemos observar seu cuidado com a escrita musical, principalmente as ligaduras de expressão. Acreditamos que, por tocar um instrumento de sopro, era muito importante grafar as frases musicais e “suas respirações”.

            A maioria de suas melodias foi escrita sem acompanhamento, mas nas partituras de “Lágrimas no Deserto”, “Coração que Dorme” ou “Miss Ouro Preto” que foram editadas e publicadas por Irmãos Vitale, observa-se um cuidado na escrita do acompanhamento para piano: variações de baixo e muitos contracantos que criam pontes e enriquecem a melodia. Acreditamos que, com sua prática como maestro, Luiz Marzano compunha pensando nos diferentes acompanhamentos que os instrumentos da banda faziam. Não seria possível tocar suas melodias sem considerar a riqueza de timbres dos diferentes instrumentos, com seus fraseados e alturas, contribuindo para a interpretação de cada peça por ele escrita.

            Apesar de obras de construção relativamente simples, muitas nos surpreendem pelas melodias. Possivelmente por ser um clarinetista e ter composto basicamente para esse instrumento ou similares, de sopro, algumas de suas melodias tomam formas inebriantes e vibrantes em sentimento e alcance da alma. São pungentes, dolorosas, algumas apaixonadas. Outras nos fazem vibrar e parecem ser até conhecidas, aquelas músicas que depois de ouvidas, nos acompanham para sempre na memória musical (vide o Hino a Nossa Senhora do Pilar, de Ouro Preto, e o Dobrado “José Ovídio Fortes”).

            De todas elas, somente seis foram impressas e publicadas: as valsas “Coração que Dorme”, “Diva” e “Lágrimas no Deserto”; a marcha carnavalesca “Despedida de Pierrot”, o “Hino à Bandeira da Inconfidência” e a marchinha “Miss Ouro Preto”, essa última em 1930, dedicada a Srta. Adésia Toffollo, “no auge da revolução e da eleição de Miss Brasil”. (idem, entrevista citada acima)

            “Coração que dorme”, citada acima, foi sua composição mais divulgada e conhecida. Ainda na entrevista concedida à Maria do Carmo Corrêa, Luiz Marzano relata:

“cheguei mesmo a ouví-la transmitida por uma rádio da Argentina e também pela Rádio Nacional do Rio de Janeiro, quando ela era apresentada como prefixo de um programa romântico da Rádio Bandeirante de São Paulo. Esta música, escrevi-a numa noite de muito cansaço e trabalho. Didi (Geraldino Dias Filho) foi quem a exibiu, pela primeira vez, com a orquestra do Cinema Central, arrancando do público ruidosos aplausos”.

Algumas obras como a Valsa “Ione”, três choros (“Arranca Tôco”, “Bagaceira” e “Ostenzik no choro”), alguns dobrados e hinos, citados por Luiz Marzano também na entrevista referida acima, permanecem por nós desconhecidos.



[1] Maria do Carmo Corrêa , musicista mineira, contrabaixista na Orquestra Sinfônica Mineira, foi para a Bahia na década de 1950 onde trabalhou em projetos na UFBA e na Orquestra Sinfônica daquele estado. Identificamos também que Maria do Carmo atuou juntamente com Georges e Ana Maria Vincent, formando um trio dedicado à performance de música antiga, e que participou também do Grupo de Música Antiga da UFMG, possivelmente após retornar à Belo Horizonte após sua aposentadoria.





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