quarta-feira, 26 de abril de 2023

O Começo De Tudo ou O Barquinho Vai, O Barquinho Vem...

        Vamos chamar de começo, mas como é difícil definir um começo! Principalmente quando pensamos em uma história feita de gente.

        Até bem pouco tempo, acreditávamos que o começo do Brasil tinha sido no dia 21 de abril de 1500. Foi assim que aprendemos nos bancos escolares na década de 1970. Éramos tão ingênuos, tão crédulos naquelas figuras que nos ensinaram a escutar, tão tolhidos em nossas percepções e sensibilidades, que não questionamos esse fato.

        Agora sabemos que o começo é sempre um começo escolhido por alguém, por um grupo, com um propósito bem determinado,

        Como tivemos nós aqui o poder dessa escolha, vamos começar nossa história relembrando um momento em que já não se podia mais manter a realidade da escravidão africana que – praticamente nos três séculos e meio anteriores – tinha sido a responsável pela produção de riqueza e ocupação territorial da ex-colônia portuguesa em que hoje vivemos.

        Era o final do século XIX; desde 1850 a lei Eusébio de Queiroz estabelecera o fim do tráfico de escravos para o Brasil. Outras leis, implementadas gradativamente até culminarem na Lei Áurea (em 1888), foram redigidas para documentar e tornar oficiais a abolição da prática da escravidão, que já não mais condizia com a realidade de um mundo moderno, regido por ideais iluministas (que chegavam ao Brasil com certo atraso) de liberdade e de igualdade entre os povos.

        Entretanto, a ocupação do território brasileiro além da faixa litorânea que, mesmo tardia, ganhara impulso com a descoberta do ouro e diamante em algumas regiões como Goiás e Minas Gerais, necessitava de material humano para se efetivar e para ter continuidade. A agricultura extensiva (de açúcar e de café, particularmente) e a agricultura intensiva, que fornecia alimento para a população nos centros urbanos, necessitavam mais do que mão de obra, mas também de pessoas que tivessem domínio de técnicas agrícolas.

        Por outro lado, o Novo Mundo consistia um atrativo para a população de boa parte da Europa, que passava por uma profunda mudança econômica e demográfica, marcada pelo aumento da densidade populacional e da escassez de trabalho nas áreas rurais, devido a modernização dos processos agrícolas e das mudanças na distribuição da posse das terras. Para os europeus as Américas representavam abundância de terras férteis e acesso à riqueza. Além disso, o progresso e a melhoria das condições de transporte (marítimo e ferroviário) prometiam facilidades antes não sonhadas para alcançar o outro lado do Atlântico e desbravar o interior das novas terras.

        O fluxo imigratório europeu para as terras americanas, espontâneo ou subsidiado pelo governo, alcançou grandes proporções, principalmente no período correspondido entre 1880 e a Primeira Guerra Mundial. Os Estados Unidos, a Argentina e o Canadá destacam-se pela absorção de grande volume de imigrantes espontâneos (...)  No caso do Brasil (...) a maioria dos imigrantes veio em função dos subsídios oferecidos. (BOTELHO, TARCÍSIO R., BRAGA, MARIANGELA P., ANDRADE e CRISTIANE V., Imigração e Família em Minas Gerais no final do século XIX. Revista Brasileira de História. São Paulo, v. 27, nº 54, 2007, p. 157)

        Minas Gerais apresentou algumas peculiaridades nesse processo. Embora não tenha sido o destino de grande massa de imigrantes neste período, a vinda dos europeus foi subsidiada pelo governo do estado com o propósito de favorecer o povoamento dos espaços rarefeitos do seu território e de promover mudanças qualitativas na agricultura, provendo tecnologia para uma exploração mais eficiente da terra. Assim, o imigrante não era destinado exclusivamente às fazendas de café (agricultura extensiva), mas a ele eram oferecidos alguns favores para ser proprietário de lotes rurais em alguns núcleos designados pelo estado.

        É na década de 1890 que se organiza melhor o serviço de introdução de imigrantes no estado de Minas Gerais, acompanhando a tendência do Brasil como um todo. São aprovadas leis e emitidos decretos com a finalidade de viabilizar a introdução dos imigrantes. Nos passos desses diplomas legais, contratos são realizados e o governo estadual designa funcionários para acompanhar a saída desses imigrantes da Europa e sua chegada e estabelecimento no Brasil. No estado, os imigrantes são encaminhados para as hospedarias encontradas em diversas localidades (Juiz de Fora, Belo Horizonte, Estação de Vista Alegre, Estação da Soledade) seguindo o modelo largamente adotado em São Paulo (idem, p. 162).

        No registro de imigrantes chegados à Minas Gerais, é observada a prevalência de italianos e espanhóis, notando-se igualmente a característica de consistirem núcleos familiares de menor ou maior porte.

        Em 1898 existiam quatro núcleos coloniais mantidos pelo Estado: Rodrigo Silva, nas proximidades de Barbacena; Maria Custódia, no município de Sabará; Barreiros, nas proximidades de Belo Horizonte; e São João Del Rei. Esses núcleos concentravam uma população de 1.920 indivíduos, dos quais 1.360 eram estrangeiros. O relatório de 1898 informa ainda que além destes núcleos regulares, diversos outros existem em formação em estabelecimentos agrícolas particulares nos quais tem-se colocado quase todos os imigrantes recebidos no Estado (idem, p.163).


                                                                               


Arvore genealógica tendo ao centro Moisés Marzano, pai de Luiz Marzano.

                                                                           


Moyses Marzano e Minelvina

        Nesse momento de nosso relato, cabe trazer à memória um casal italiano. Ele, Angelo Marzano, nascido em 08 de janeiro de 1827, em Lagonegro, Potenza, Basilicata e ela, Tereza Mazzaro, nascida em 22 de abril do mesmo ano e no mesmo local de Angelo, com quem viria a se casar em 27 de dezembro de 1852.

        Possivelmente na esperança de um futuro promissor e de poder ver realizados alguns sonhos (quem os saberá?), o senhor Angelo Marzano e a sua senhora, agora Teresa Marzano, deixaram a terra italiana, embarcando em Nápoles no navio La France em direção ao Rio de Janeiro, onde aportaram em 03 de agosto de 1882:

        Chegou ao Brasil em 03 de agosto de 1882 (Rio de Janeiro). O "Vapeur La France", que saiu de Marseille, France, em 14 de "juillet" (julho" de 1882), parou em "Genoa" (Gênova) e, após, em "Naples" (Nápoles), chegando ao Rio de Janeiro em 03 de agosto de 1882, recebendo a notação, no Porto do Rio de Janeiro, de "BR.AN.RIO.OL.O.RPV.PRJ 1742" Pois bem, na listagem pode-se ver, com certa clareza, dois passageiros: ANGELO MARZANO, nº origem 7, profissão "Ferblantir" (Ferreiro - ou funileiro), casado, passageiro da 3ª Classe, embarcado em "Naples" (Nápoles) Teresa Marzano, nº origem 8, casada, passageira da 3ª Classe, embarcada em "Naples" (Nápoles) Ambos chegaram ao Rio de Janeiro e foram para Entre Rios de Minas.  (disponível em https://www.familysearch.org/tree/person/details/LTZJ-S58#:~:text=3%20colaboradores%20anteriores-,Chegou%20ao%20Brasil%20em%2003%20de%20agosto%20de%201882%20(Rio%20de,VER%20TODAS%20AS%20ALTERA%C3%87%C3%95ES ,ultima alteração em 17 de outubro de 2022, realizada por Paulo Marzano Cintra.)

        Angelo Marzano e Teresa (na época ambos com cerca de 55 anos), não foram os únicos a buscar uma nova vida no Brasil. Pelo menos três de seus cinco filhos também vieram para cá, de acordo com registros que encontramos: Salvatore, Moysés e Gesualda Marzano.

        Em um trabalho de pesquisa, também registrada no site www.familysearch.org, por Paulo Marzano Cintra, encontra-se cópia do cartão de imigração digital de Salvatore Marzano (nascido em 11/08/1863), jornaleiro, que teria chegado ao Brasil em dezembro de 1880 com apenas 17 anos (disponível em https://www.familysearch.org/photos/artifacts/161463495?cid=mem_copy).

        Quanto a Moyses Marzano, seu nome consta como o passageiro de número 647 do Vapor Baltimore, listado na página 19 do documento br_rjanrio_ol_0_rpv_prj_01142,  pela Divisão de Polícia Marítima, Aérea e de Fronteiras. Ele teria saído de Gênova com destino ao Rio de Janeiro, onde chegou em 18 de janeiro de 1880, com 24 anos. (disponível em https://www.familysearch.org/photos/artifacts/161468889?p=21213199&returnLabel=Moys%C3%A9s%20Marzano%20(LK4G-Q3F)&returnUrl=https%3A%2F%2Fwww.familysearch.org%2Ftree%2Fperson%2Fmemories%2FLK4G-Q3F ).

        A vinda de Gesualda Marzano, por sua vez, é conhecida de acordo com relato de Sonia Thereza Borges de Souza, em grupo de família do Facebook (PAGLIAMINUTAS, AVERSAS, MARZANOS E PANZERAS), narrado por Tiago Navarro, membro do grupo em fevereiro de 2021. Segundo esse relato, “Moyses Marzano acolheu sua irmã Gesualda Marzano quando ela chegou da Itália. Ela foi com as crianças Angelo Panzera, Giovanni Panzera, Maira Philomena Panzera e Maria Carmela Panzera para um lugar onde os italianos trabalhavam. Ela trabalhou em São João d'El Rei num lugar de imigrantes italianos, que até hoje se chama Colônia”.

                                                            

                                                   


Moyses Marzano
1940



             Moyses Marzano (ou Mose Marzano ou, ainda, Moisés Marçano), nascido em Lagonegro, região da Basilicata (Itália), em 28 de outubro de 1855, se estabeleceu na região que hoje compreende o município de Entre Rios de Minas e  desposou  Minelvina  Maria de Jesus Lisboa. Minelvina, nascida naquela cidade em 22 de abril de 1866, era filha de um imigrante português, Antonio dos Santos Lisboa e de Maria Delfina de Jesus  (ou Maria Delfina Coelho): Fonte: "Brasil Batismos, 1688-1935", database, FamilySearch (https://familysearch.org/ark:/61903/1:1:XV7R-GLR : 14 February 2020), Maria dos Santos, 1866.

O casamento foi celebrado em Entre Rios de Minas, (https://www.familysearch.org/photos/artifacts/131501725?cid=mem_copy), em 28 de novembro de 1885. Tiveram pelo menos doze filhos (vivos até a idade adulta), mantendo a tradição de nomear os dois primeiros com os nomes dos avós paternos: Angelo, Maria Tereza, Emília,  Valentim, Nicolau, Luiz, Margarida, Antonio, Salvador, José, Ana e Francisco.

Moyses, segundo relatos de seus descendentes, prosperou construindo alambiques para fazendeiros da região e posteriormente trabalhou no comércio. A comemoração das bodas de ouro do casal (50 anos de casamento), foi realizada em Entre Rios de Minas, com a presença de muitos familiares e convidados, sendo a festa comentada durante muito tempo e registrada em uma bonita e interessante fotografia, onde reconhecemos muitos de seus filhos e netos.

Moyses faleceu em Entre Rios de Minas, em 01 de novembro de 1941 e Minelvina faleceu dois anos depois, em 29 de dezembro.






Fotografia tirada por ocasião das Bodas de Ouro do casal Moyses e Minelvina
(Entre Rios de Minas, 1935)


O Nascimento de Luiz Marzano

        Dez anos depois de seu casamento com Moyses Marzano, Minelvina deu à luz a um menino, Luiz.

        Isso de acordo com a via de sua Certidão de Nascimento tirada em 2001. Ali, consta a seguinte data de nascimento: 26 de novembro de 1895.

        Entretanto, todo mundo já ouviu alguma história sobre os nascimentos de “antigamente”, isto é, da época anterior  ou mesmo contemporânea à sistematização e à universalização do registro civil, imposta pelo Decreto 9886 de 7 de março de 1888. Esse Decreto, que efetivamente entra em vigor somente em 1889, instituiu a obrigatoriedade do registro de nascimento, casamento e óbito em ofícios do Estado, deixando então esse ato de ser prerrogativa da Igreja Católica. A população do interior do país, particularmente, demora a incorporar esse dever, seja pela ausência de cartórios próximos ao local de residência ou por outros motivos. (disponível em https://pt.wikipedia.org/wiki/Registro_civil_no_Brasil)

        Portanto, não nos causa tanta estranheza que encontremos pelo menos, além da certidão em questão, outros dois registros diferentes de datas para marcar o início da vida de Luiz Marzano: aquele anotado em sua carteira de identidade emitida em 1949 (foto abaixo) e aquele mencionado pelos seus filhos e mesmo netos que conviveram mais de perto com ele. No primeiro caso, o ano de nascimento é 1897.

        No segundo caso, marcado afetivamente pela comemoração inclusive de seus aniversários, Luiz Marzano teria nascido em 24 de novembro de 1896!

        Dois de seus filhos, movidos pelo propósito de manter viva a história de Luiz Marzano, bem antes dessa iniciativa de agora, falam dessa mesma data.

        Vinicio Marzano há muito procurou reunir a obra do pai (composições musicais, das quais falaremos mais tarde), organizá-la em um pequeno caderno que distribuiu para os irmãos e alguns sobrinhos e o fez, precedendo as cópias com uma pequena biografia, que se inicia da seguinte forma:  Luiz Marzano nasceu em Entre Rios de Minas MG em 24 de novembro de 1896...”

        Luiz Marzano Filho, ao publicar seu primeiro livro “Um Sonho... o Éden”, em 1998, também dedica o apêndice aos pais, relatando que “Meu pai...nascido em 24 de novembro de 1896...” (FILHO, Luiz Marzano. Um sonho...o Éden. Ouro Preto. 1998, p. 106).

        Há ainda um caderno, distribuído em Ouro Preto não sabemos precisar exatamente em que ano, em cuja contracapa uma breve biografia também reforça a idéia de que ele teria nascido em 1896.




Certidão de Nascimento Luiz Marzano






Biografia anexada a conjunto de partituras musicais de Luiz Marzano, organizadas por Vinicio Marzano por ocasião de Encontro de Família em 1998, realizado em Belo Horizonte, MG







Carteira de identidade Luiz Marzano 1949



        Vamos então, por esse momento, deixar de lado o rigor quanto a essa questão de data de nascimento. Não nos referimos, anteriormente, que o início das histórias é sempre marcado por algum referencial particular?

        Aliás, vamos prosseguir agora com um pouco de ficção e poesia? (essas primeiras páginas estão nos  parecendo um pouco enfadonhas com tantas referências de data e de marcas biográficas....)

O Menino Luiz

        Aquele menino, o Luiz, era inquieto. Não lhe bastava aquela vida em Entre Rios de Minas, junto à família, naquela rotina e casa de sempre. Seu coração se inquietava, já precocemente batia num ritmo diferente, prenunciava uma melodia que ia ser diferente daquela que parecia ter sido composta para ele por seus pais.

        Seus olhos sonhavam com um pouco de aventura: afinal seu pai e avós não haviam cruzado o oceano para buscar novas terras? Quem, então, se oporia a seus sonhos, àquela voz que lhe falava de uma vida diferente, mais promissora?

        Na lida diária, ajudando sua mãe, a lhe trazer a lenha, a cultivar a horta, a cuidar da criação da família, ia distraído, cantarolando as canções que ouvia – aquelas que relembravam a terra italiana dos seus antepassados e também aquelas aprendidas com o povo que por aqui já se encontrava (gente do gado, gente da lavoura, mistura colorida de sons e origens) – canções  que avós, tios e outros parentes faziam soar nas reuniões familiares.

        Curioso, espichava o ouvido para escutar as conversas dos passantes, ouvia falar das cidades próximas, das novidades. E assim, um dia, ouviu falar daquela cidade encantada, que ostentava casarões e palácios, que acalentara um grande sonho de liberdade, que pairava no momento um pouco esquecida, pois deixara de ser a capital do estado. Mas continuava solene, rodeada de serras, e de histórias, e de arte, onde muita gente importante ainda morava.

        O menino Luiz não era um menino comum. Se tivesse sido, estaríamos agora escrevendo aqui sobre ele? Se tivesse permanecido onde fora colocado, se tivesse aceitado seu destino, se tivesse se tornado um agricultor, um criador de gado, se tivesse namorado e se casado com a moça bonita que iria se tornar Rosinha, sua companheira de brincadeiras na rua, possivelmente não seria aqui lembrado, da maneira que está sendo.

        Se o Moisés e D. Minervina se preocupavam. O que ia ser do Luizinho? Por que aquele sonho no olhar? Aquelas febres? Pois sempre estava distraído, não os atendia direito, postergava as tarefas diárias. Já não era criança, daqui a pouco teria que assumir novas funções na roça, novas responsabilidades. E seo Moisés, um pouco carrancudo como todo bom italiano que se preze, ao ver o menino no caminho torto, passava-lhe suas carraspanas....

        Assim foi indo, até que um dia, numa desses desencontros com os pais, Luis tomou o rumo de Ouro Preto. Ele nos contou, muito tempo depois, que tinha dezesseis anos naquela época (conferir em entrevista publicada no Informativo Ouro Preto, em março de 1969, redigida por Maria do Carmo Correa, constante no blog).

        Era a primeira década do século XX. Eram novos os tempos. E lá se foi o menino, não sabemos bem como, se de uma carona aqui, outra acolá, se tomou alguma condução, se foi escondido, se estranhou o percurso, um tanto longo, com tantas curvas no caminho....

        E avistou o Itacolomi. E se admirou com aquele casario lindo, diferente, imponente. E caminhou por sobre as pontes de pedra, bebeu água de muito chafariz, tropicou nas pedras irregulares, avistou varandas e enormes portas e janelas, e muita gente pelas ruas, e muitas ladeiras.

        E se frustrou também um bocado. A cidade, que respirara ouro, que respirara luxo, por onde tantos heróis da liberdade caminharam, a musa inspiradora de tanta poesia e graça, não estava tão enfeitada e viçosa quanto esperava. Havia mais cinza que brancura em seus grandes muros, suas pedras se escondiam no verde do limo, as calçadas descuidadas, os grandes prédios públicos tristonhos.... Era um momento de decadência da cidade. E, se o rapaz esperava um grande acolhimento, Ouro Preto lhe mostrou – de pronto – mais dureza e frio do que aquela alma juvenil esperara encontrar. E veio a noite, e lhe restou a rua. E ficamos por aqui imaginando, com o coração um pouco apertado, o que passou pela mente daquele jovem filho de imigrantes, num mundo novo, imenso e desconhecido naqueles momentos primeiros.

        Ele mesmo falaria disso, trazendo de volta aquele tempo: “Aportei em Ouro Preto dia 21 de outubro de 1912. Vim fugido, pois meu pai não concordava com a minha vinda. Aqui cheguei no inverno, com apenas duzentos réis no bolso, sendo obrigado a dormir na rua e tomar café com os amigos eventuais”. (novamente de acordo com entrevista por ele concedida a Maria do Carmo Correa e publicada no Informativo Ouro Preto, em março de 1969, constante no blog).


* Os filhos de Luiz Marzano, Luiz Marzano Filho e Vinicio, em seus relatos, consideram que o pai teria chegado a Ouro Preto antes de 1912, quando teria perto de 14 anos de idade. É o que trazem consigo de memória.



                                                                


Ouro Preto, 16 de novembro de 1964. Arquivo Nacional. Fundo Correio da Manhã. BR.RJANRIO.PH.FOT.1925/39.



        



Luiz e Maria José

             Luiz Marzano, que chegou a Ouro Preto de um modo tão solitário, não tardou a encontrar companhia.

           Ouro Preto sempre foi considerada uma cidade romântica e imaginamos que essa sua característica era ainda mais importante naquele início do século XX, transportando-nos para aquela época,quando ainda o luar imperava sobre a luz dos postes e faróis e quando os olhares furtivos se cruzavam pelas calçadas de pedra, e ainda se escreviam bilhetes e se ofereciam flores...

            Naqueles mesmos anos, a cidade abrigava uma outra família de descendência italiana, a do Sr. Vicenzo Trópia e Sra. Rosa Bonsangue Tropia, provenientes de Canicatti, província de Agrigento, na ilha da Sicília.

Assim como o pai de Luiz, os dois deixaram a Itália, trazendo consigo os seus cinco filhinhos: Antonia, Calógero, Salvatore, Pietro e Antonio, com idades variando dos 10 anos aos 6 meses de idade.

           Após uma viagem longa e difícil no vapor Colombo na qual, inclusive, vieram a perder um de seus filhos (Calógero, de 8 anos), chegaram ao Rio de Janeiro em 16 de agosto de 1896. (Tavares, Ana Regina Bittencourt. Recordações – Yone Tropia Bittencourt. Belo Horizonte: 3iEditora, 2013).

          Como possuíam alguns familiares em Juiz de Fora, para lá se dirigiram inicialmente. Ali nasceu a primeira filha do casal em terras brasileiras, Maria José Trópia, em 19 de março de 1900.

          Posteriormente, mudaram-se para Passagem de Mariana e para Ouro Preto, onde se instalaram à Rua São José, tendo Vicenzo ali aberto sua oficina como sapateiro: “A Bota de Ouro”.

Vicenzo e Rosa tiveram mais três filhos e prosperaram na cidade onde, segundo nos relata Yone Tropia (idem acima), Vicenzo “era muito alegre, conhecido e respeitado por todos”. Rosa, porém, veio a falecer precocemente (em 1910), e Vicenzo precisou contar com a ajuda de Sá Maria, que chegara da Itália e foi contratada como empregada, para auxiliar no cuidado dos filhos, muitos ainda pequenos. Mais tarde, contaria com a ajuda de uma prima, Sá Donana, para a mesma função.

E foi pela Maria, a Maria José, por quem Luiz Marzano se encantou.

Eram muito jovens quando contraíram matrimônio, no dia 24 de novembro.

Após o casamento, mudaram-se para o Distrito de Queluz, hoje município de Conselheiro Lafaiete, onde Luiz Marzano começou a trabalhar como alfaiate para o Sr. Joubert. Em seguida montou sua própria alfaiataria, de nome Paris.

Em Conselheiro Lafaiete o casal Tropia Marzano viu nascer sua primeira filha, a quem deram o nome de Minervina. Entretanto, a criança faleceu precocemente. Após o nascimento do segundo filho, Vicente, em 20 de abril de 1919, retornaram para Ouro Preto.

Em Ouro Preto, tiveram mais 10 filhos: Rosa e José Benito (ambos também faleceram ainda bem pequenos), Maria da Conceição, Luiz, Itália, Vinicio, Petronio, Marcius, Cassius e Lygia, sendo que Marcius e Cassius também vieram a falecer ainda na primeira infância, “o que causou extrema tristeza aos seus pais e irmãos, mormente por terem os óbitos ocorridos no mesmo ano, 1940”. (Luiz Marzano Filho, em “O Menino Travesso: Um Sonho...o Éden II, p. 32).


                                                                


Maria José Tropia


A família Trópia Marzano

             Os relatos ouvidos de nosso pai e de nossos tios nos fazem acreditar que a vida não foi muito fácil para aquela família numerosa.

As dificuldades financeiras sempre acompanharam Luiz Marzano em sua vida profissional; sua família mudava constantemente de casa, sempre que havia um aumento de aluguel ou que o proprietário decidia não mais alugar o imóvel.

Quanto a essa questão da moradia temos conosco duas narrativas muito interessantes, que aqui passamos a contar.

Em seu livro de memórias, Yone Tropia Bittencourt, sobrinha de Luiz Marzano e Maria José, lembra-se de quando aquela família morou no sobrado construído no local onde antes se situava a casa onde morou Tiradentes, hoje abrigando a Associação Comercial de Ouro Preto.  Ela se recorda: “Eu tinha horror de ir até lá, pois os meus irmãos diziam que, quando eu passasse no corredor, o Tiradentes iria me agarrar; por isso, quando eu chegava na porta, gritava por minha tia e subia a escada embalada” (Tavares, Ana Regina Bittencourt. Recordações – Yone Tropia Bittencourt. Belo Horizonte: 3i Editora, 2013).

A outra - uma das muitas histórias narradas pelo meu pai, Petronio  - dizia respeito a uma das mudanças que iriam empreender. Para realizá-la, os jovens moços da família fizeram-se valer de carrinhos de mão (de construção) com os quais carregavam os pertences. Após inúmeras viagens, que demandaram grande esforço por conta das ladeiras de Ouro Preto, sua mãe tomou a decisão de não querer mais se mudar para aquele novo local, fazendo-os retornar com tudo o que já havia sido transportado!... Segundo ele, a mãe teria ficado sabendo que uma outra mulher, suposta amante do marido, teria visitado a casa antes dela!

A partir de 1949, tendo Luiz Marzano Filho recebido seu pagamento pelo trabalho desenvolvido durante um ano na Serra do Navio, no Amapá (seu primeiro emprego após a formatura como engenheiro pela Escola de Minas de Ouro Preto), este adquiriu uma casa na Rua do Pilar e a cedeu para que seus pais e irmãos ali residissem. Ali permaneceram até 1962, quando Luiz Marzano Filho construiu uma residência à Rua Antonio de Albuquerque onde foram morar seu pai e seus irmãos mais novos, visto que sua mãe, Maria José Tropia, falecera recentemente.

Luiz Marzano talvez não fosse o exemplo de um marido exemplar e caseiro, “trabalhava o dia inteiro na sua alfaiataria com lojinha anexa; gostava de compartilhar momentos em ‘jazz-band’ com amigos e parentes”... e era seresteiro  (Luiz Marzano Filho em “O Velho Teimoso: Um sonho...o Éden III”, p.121-123).

A nós, netos, pouco era dado a conhecer sobre sua vida social e boêmia, mas hoje compreendemos melhor o porquê de algumas valsas por ele compostas serem dedicadas a outras mulheres.

Entretanto, sejam movidos pela compreensão ou pelo respeito, os filhos sempre se referiram a ele com palavras carinhosas. Luiz Marzano Filho, em suas três obras autobiográficas que muito nos auxiliam nessa reconstrução biográfica de Luiz Marzano, por diversos momentos reconhece no pai uma pessoa possuidora de “bom coração, elevado astral e de fácil meio de comunicação... que não era perfeito, mas nunca deixou de cuidar da família... com carinho, conselhos saudáveis e assistência completa ao lar” (em “O Velho Teimoso: Um Sonho... o Éden III, p.121, 122).

Em “Um Sonho... o Éden”, nas páginas 106 e 107, Luiz Marzano Filho nos fala também do pai amoroso e cuidadoso com a formação dos filhos, tendo inclusive recusado trabalho em Belo Horizonte, num momento de maior dificuldade financeira, pois acreditava que os filhos teriam maior oportunidade de estudo na cidade de Ouro Preto, o que veio a concretizar-se, com a formação de três de seus filhos em Engenharia pela então Escola de Minas de Ouro Preto.

Já a sua Maria era caseira. “viveu exclusivamente do lar para a igreja, da igreja para o lar” (Luiz Marzano Filho, idem, p. 105 e 106). Mantinha grande amizade e cumplicidade com sua cunhada Adelina, casada com Salvador Tropia. As duas eram companheiras também em seu modo de ser, reservadas – embora sempre com um sorriso no rosto – devotas à religião (frequentando diariamente a igreja) e a seus lares, onde se esmeravam no cuidado com os filhos e com a alimentação da família, preparando deliciosas macarronadas.

 “Lembro-me de minha mãe sempre ajoelhada, quer na igreja ou no seu quarto, a fazer suas orações, em tom baixinho, como se a pedir pela felicidade e saúde de todos os seus entes queridos e, ainda, talvez, que a boemia do seu querido esposo se abrandasse” (Luiz Marzano Filho,idem, p. 106)

Ambos, Luiz e Maria José, embora não tivessem mais que o “Ensino Primário” na época, procuraram incentivar os filhos a estudarem, o que na época não era muito comum às famílias. Luiz Marzano, com seu espírito livre e arrojado, gostava de ler, conversar e se informar com pessoas cultas,  e transmitir valores que prezava para seus filhos.

Formaram uma família feliz e unida. Hoje são muitos os descendentes de seus sete filhos que chegaram à idade adulta. Voltaremos a esse assunto em outra postagem.




Luiz Marzano em foto de 1929


                                                    

       


Maria José Tropia



                                                                                




Luiz Marzano, em foto de 1966, ao lado dos sete filhos, da esquerda para direita:
Vinicio, Petronio, Luiz, Lygia, Vicente, Maria da Conceição, Luiz Filho e Itália







Entrelinhas: as Linhas da Costura

   O jovem Luiz Marzano encontrou apoio e trabalho junto à alfaiataria do Sr. Antonio Cristino, tornando-se aprendiz de alfaiate. Foi então que começou a dar uma nova direção à sua vida. A alinhavar e a costurar um novo futuro, a pregar botões e novas certezas, a aprender novos caminhos.

    Foi com sua lida como alfaiate que Luiz Marzano sustentou, posteriormente, sua família que – como muitas naqueles anos – foi bastante numerosa.

    Luiz Marzano Filho (em sua obra “O Velho Teimoso: Um Sonho...o Éden III”, p.122), relata que seu pai – após se casar com Maria José Trópia, em 1915 -  foi residir com a esposa no município de Conselheiro Lafaiete, então Distrito de Queluz, onde foi trabalhar na “Alfaiataria do Sr. Joubert”.

    Posteriormente, chegou a abrir naquele local sua própria loja, “na parte baixa, próximo ao Rio Bananeiras”. Encontramos registro de Luiz Marzano como Alfaiate, autônomo, em Queluz  já a partir do ano de 1915.(http://memoria.bn.br/DocReader/Hotpage/HotpageBN.aspxbib=313394&pagfis=117199&url=http://memoria.bn.br/docreader#)

    Em 1919 chegamos a encontrar alguns anúncios nos jornais “O Lafayettense” e “A Voz do Povo”, do município de Conselheiro Lafaiete de sua então “Alfaiataria Paris”, situada primeiramente na Rua Marechal Floriano e, posteriormente na Rua Dr. Campolina, ambos destacando sua “confecção esmerada” e seus “preços módicos”.

    Retornando a Ouro Preto, possivelmente ainda em 1919, após o nascimento de seu segundo filho, Vicente, inaugurou ali sua “Alfaiataria Moderna”.

    Como alfaiate nessa cidade, ampliou sua clientela e seus serviços, inclusive de confecção de uniformes militares. Segundo relato de Vinicio Marzano, “era praticamente o único a confeccionar uniformes” para os integrantes do 10º Batalhão de Caçadores do Exército Brasileiro, que é instalado em Ouro Preto a partir de 1922.

    Pelo menos dois de seus filhos, Vicente e Luiz Marzano Filho, auxiliaram o pai na oficina. Luiz Marzano teve também outros grandes parceiros, com quem compartilhava seu trabalho, dividido em etapas (modelagem, corte dos tecidos, costura e acabamento), sendo o Sr. Porfírio Guimarães citado pelo filho Luiz como um dos sócios do pai em sua época mais promissora como alfaiate. 

    Lygia Marzano, sua filha mais nova, que permaneceu residindo com o pai até seu falecimento, em 1973, recorda-se que o pai compartilhava seu conhecimento de alfaiataria, inclusive com alfaiates da capital, Belo Horizonte, ensinando a todos que lhe pediam, suas técnicas.

    Em seu período mais propício, a partir de 1935, a Alfaiataria Moderna esteve situada no início da Rua Conde de Bobadela (Rua Direita) onde, ainda segundo Luiz Marzano Filho, “pela primeira vez”, seu pai “conseguira comprar, reformar e reunir o ambiente do seu ofício com o do lar” (O Menino Travesso: Um Sonho...o Éden II, p. 31). Mas este período teria durado poucos anos.

    Também segundo Luiz Marzano Filho -  desta vez em sua obra “Um Sonho ... o Éden”, de 1988, p. 107 -  “por ocasião da Segunda Guerra, com a remoção do 10º BC para a orla marítima...seu pai teria sido obrigado a desfazer a sociedade que mantinha com seu grande amigo, Porfírio Guimarães, e a demitir alguns de seus oficiais alfaiates, para o que foi necessário vender a única casa que conseguiu possuir e usufruir por apenas três anos”.

    Apesar das dificuldades, Luiz Marzano parecia sempre encontrar formas criativas para persistir. É ainda seu filho Luiz que relata que, nessa mesma época da Segunda Grande Guerra, ele “cismou” em fabricar giz de alfaiate, já que o produto – anteriormente importado da França – começou a faltar no mercado.

    “Com a orientação e ajuda do professor de Química da Escola de Minas, Francisco Pignatari, após alguns meses de experimentos e ensaios diversos, conseguiu alcançar a fórmula definitiva e satisfatória ao uso próprio, misturando argilas, tintas e outros ingredientes, utilizando aparelhos e estampa idealizados por si mesmo. Montou, em seguida, uma indústria caseira, pequena” e começou a atender também alfaiates de outras cidades (Marzano Filho, Luiz . Um Sonho... o Éden. P. 109).














O Gordo e o Magro

             Paralelamente à alfaiataria, Luiz Marzano manteve sempre uma loja de tecidos e afins, como cobertores, outras confecções,etc. Procurava se manter atualizado, “comprava revistas de moda masculina, comuns na época, para adquirir conhecimentos dos novos modos de corte e costura e, depois de aprendê-los, procurava transmiti-los aos seus oficiais e mesmo aos concorrentes" (Marzano Filho, Luiz . Um Sonho... o Éden. P. 109).

            Seu último endereço comercial foi o da Rua São José, número 83. São desse lugar, impregnado de lembranças e saudades, as melhores memórias desse avô.

            Ali ele trabalhava, ali ele atendia seus clientes, sempre com bom humor e disponibilidade para uma conversa.

            Se você nasceu em Ouro Preto, há alguns anos atrás, há de se lembrar dos seus manequins. Seus famosos manequins, e Oliver Hardy e Stan Laurel  – o Gordo e o Magro. Foram admirados e fotografados incontáveis vezes, por ouropretanos, por curiosos, por turistas e até mesmo por artistas que passaram por aquela calçada da Rua São José.

            Tanto é verdade que uma foto da Alfaiataria Moderna, com seus manequins à porta foi parar no Metropolitam Museum of Arts, em Nova Iorque. A referida foto foi tirada em 1956, por Esther Bubley, um dos ícones da história da fotografia e fotojornalismo que, passando em Ouro Preto durante uma viagem a trabalho pela América Latina, capturou um momento especial e mágico, reunindo dois outros homens aos bonecos, os quatro voltados a olhar uma mulher que passava na calçada.

            O grande pintor e artista Alberto da Veiga Guignard, que residiu em Ouro Preto nos seus últimos anos de vida, também se deixou flagrar pela câmera à porta da Loja Marzano, em companhia e diálogo com os manequins de Luiz Marzano.

            Após o falecimento de Luiz Marzano, em 1972, sua filha caçula, Lygia, continuou à frente da Loja Marzano por aproximadamente mais 30 anos.


                                                                                 



Luiz Marzano e seus manequins 1971

   


Luiz Marzano entre seus famosos manequins






Guignard à porta da Alfaiataria Marzano





Guignard saindo da Alfaiataria e Loja Marzano







Fotografia realizada por Esther Bubley em 1956

 
    

Luiz Marzano e as linhas da pauta

          

            Lá de muito longe, de um outro tempo, de uma entrevista que concedeu a Maria do Carmo Corrêa[1] para o Informativo Ouro Preto, em março de 1969, Luiz Marzano em pessoa nos conta como foi que as linhas da pauta musical começaram a se entrelaçar com as linhas do ofício de alfaiate em sua vida:

            “No exército, com pequeno conhecimento de música, muito esforço próprio e ajuda de colegas, ingressei-me na banda militar do 10º Batalhão de Caçadores, onde tocava clarineta. Isto foi um grande estímulo e um grande passo em minha vida. Já conhecia muitos músicos da época, e daí comecei a compor pequenas valsas, que executava nas serestas.”

         Esse ingresso no mundo musical faria de Luiz Marzano um homem diferente, pois foi através da música que ele pôde expressar da melhor maneira possível sua alma livre e criativa, foi através dela que ele pôde também realizar feitos que o tornaram conhecido e valorizado por seus conterrâneos.

          Sua carreira musical foi muito rica e podemos dividi-la, apenas para fins de uma análise mais objetiva, em três vertentes: a do compositor, a do regente de banda e a do músico ou instrumentista das antigas serestas e bailes sociais de Ouro Preto.

      Como compositor, sua obra – que hoje nos surpreende por sua extensão quando começamos a pesquisá-la e a divulgá-la – não chegou a ser muito conhecida fora de um círculo restrito à família e a alguns setores da comunidade ouropretana (bandas de música e alguns ramos da Igreja Católica).

         A partir da pesquisa e organização de manuscritos, recolhidos e preservados de maneira especial por um de seus filhos, Vinicio Marzano, e de outras buscas junto à Sociedade Musical Bom Jesus de Matozinhos e memórias familiares, chegamos a compilar duas dezenas de composições, a saber: 11 valsas, 3 marchas, 2 sambas, 1 serenata, 1 hino religioso, 1 hino cívico e 2 dobrados para banda.

             Analisando suas composições nos aspectos de forma e harmonia, podemos perceber que a maioria de suas valsas possui três partes, sendo que as duas primeiras estão em modo menor e a última parte, algumas vezes chamada de Dueto ou Trio, estão escritas em modo maior. As marchas e sambas possuem somente duas partes.

       Quanto à harmonia predominam os acordes de tônica, dominante com sétima e subdominante. Enquanto copiávamos suas melodias manuscritas para o programa de edição de partituras, pudemos observar seu cuidado com a escrita musical, principalmente as ligaduras de expressão. Acreditamos que, por tocar um instrumento de sopro, era muito importante grafar as frases musicais e “suas respirações”.

            A maioria de suas melodias foi escrita sem acompanhamento, mas nas partituras de “Lágrimas no Deserto”, “Coração que Dorme” ou “Miss Ouro Preto” que foram editadas e publicadas por Irmãos Vitale, observa-se um cuidado na escrita do acompanhamento para piano: variações de baixo e muitos contracantos que criam pontes e enriquecem a melodia. Acreditamos que, com sua prática como maestro, Luiz Marzano compunha pensando nos diferentes acompanhamentos que os instrumentos da banda faziam. Não seria possível tocar suas melodias sem considerar a riqueza de timbres dos diferentes instrumentos, com seus fraseados e alturas, contribuindo para a interpretação de cada peça por ele escrita.

            Apesar de obras de construção relativamente simples, muitas nos surpreendem pelas melodias. Possivelmente por ser um clarinetista e ter composto basicamente para esse instrumento ou similares, de sopro, algumas de suas melodias tomam formas inebriantes e vibrantes em sentimento e alcance da alma. São pungentes, dolorosas, algumas apaixonadas. Outras nos fazem vibrar e parecem ser até conhecidas, aquelas músicas que depois de ouvidas, nos acompanham para sempre na memória musical (vide o Hino a Nossa Senhora do Pilar, de Ouro Preto, e o Dobrado “José Ovídio Fortes”).

            De todas elas, somente seis foram impressas e publicadas: as valsas “Coração que Dorme”, “Diva” e “Lágrimas no Deserto”; a marcha carnavalesca “Despedida de Pierrot”, o “Hino à Bandeira da Inconfidência” e a marchinha “Miss Ouro Preto”, essa última em 1930, dedicada a Srta. Adésia Toffollo, “no auge da revolução e da eleição de Miss Brasil”. (idem, entrevista citada acima)

            “Coração que dorme”, citada acima, foi sua composição mais divulgada e conhecida. Ainda na entrevista concedida à Maria do Carmo Corrêa, Luiz Marzano relata:

“cheguei mesmo a ouví-la transmitida por uma rádio da Argentina e também pela Rádio Nacional do Rio de Janeiro, quando ela era apresentada como prefixo de um programa romântico da Rádio Bandeirante de São Paulo. Esta música, escrevi-a numa noite de muito cansaço e trabalho. Didi (Geraldino Dias Filho) foi quem a exibiu, pela primeira vez, com a orquestra do Cinema Central, arrancando do público ruidosos aplausos”.

Algumas obras como a Valsa “Ione”, três choros (“Arranca Tôco”, “Bagaceira” e “Ostenzik no choro”), alguns dobrados e hinos, citados por Luiz Marzano também na entrevista referida acima, permanecem por nós desconhecidos.



[1] Maria do Carmo Corrêa , musicista mineira, contrabaixista na Orquestra Sinfônica Mineira, foi para a Bahia na década de 1950 onde trabalhou em projetos na UFBA e na Orquestra Sinfônica daquele estado. Identificamos também que Maria do Carmo atuou juntamente com Georges e Ana Maria Vincent, formando um trio dedicado à performance de música antiga, e que participou também do Grupo de Música Antiga da UFMG, possivelmente após retornar à Belo Horizonte após sua aposentadoria.





Hino da Coroação Pontifícia de Nossa Senhora do Pilar de Ouro Preto

             Uma composição de Luiz Marzano requer nossa atenção de uma maneira mais demorada e cuidadosa.

            Trata-se do Hino da Coroação Pontifícia de Nossa Senhora do Pilar de Ouro Preto.

     Afinal, mesmo que na contemporaneidade muitos ouropretanos sequer tenham conhecimento a respeito do Maestro Marzano, a quase totalidade daqueles que perseveram nas tradições religiosas da cidade, de modo particular na Paróquia de Nossa Senhora do Pilar, conhecem “de cor e salteado”, como se costuma dizer por lá, esse hino por ele composto.

           Sob a regência dos maestros da Banda do Rosário, sob todos aqueles que sucederam Luiz Marzano até a presente data, os músicos executam o hino dolente e vigoroso, a cada final de procissão de Nossa Senhora do Pilar, enquanto sua linda imagem em madeira entalhada entra pelas portas da basílica e os fiéis cantam com emoção e fé, repetindo entre os versos da música, as orações sugeridas pelo pároco.

            “Salve, oh Mater singular, Padroeira vitalícia de Ouro Preto secular que com a coroa pontifícia maior que a do soberano vem a fronte te adornar. Ó, Mãe dos ouropretanos, ó Senhora do Pilar!”






        Luiz Marzano compôs esse hino em 1963 por ocasião especial da elevação e consagração de Nossa Senhora do Pilar como Padroeira Pontifícia da cidade de Ouro Preto pelo então Papa João XXIII. Quem escreveu sua letra foi Hermínio Barbosa, parceiro de Luiz Marzano em outras composições, como “Miss Ouro Preto” e “Coração que Dorme”, esta última sua valsa mais conhecida.[1]





            Sobre o hino há um interessante artigo que procura estabelecer um diálogo entre aspectos da letra do mesmo e a representação arquitetônica da Basílica do Pilar, intitulado: “O Hino ‘Salve ó
Mater Singular”, expressão da comunicação simbólica das artes na Basílica de Nossa Senhora do Pilar da Cidade de Ouro Preto MG”,
escrito por Maria da Consolação Anunciação e Maria Agripina Neves, publicado no site ouropreto.com.br (disponível em: https://www.ouropreto.com.br/secao/artigo/o-hino-salve-o-mater-singular-expressao-da-comunicacao-simbolica-das-artes-na-basilica-de-nossa-senhora-do-pilar-da-cidade-de-ouro-preto, acessado em 02 de fevereiro de 2023).



 

                                                                         

Para acessar a partitura em formato pdf, clique no endereço abaixo:

https://drive.google.com/file/d/1ZfVaStPx8Sn5i6-yMlyviyFS5SOaXyZH/view?usp=share_link                         



[1] Em entrevista concedida a Maria do Carmo Correa  para o Informativo Ouro Preto, em março de 1969, Luiz Marzano mencionaria Hermínio Barbosa como possível letrista de sua então mais nova composição, a valsa “Rosa na Sombra”. Desconhecemos a existência dessa letra.