Vamos chamar de começo, mas como é difícil definir um começo! Principalmente quando pensamos em uma história feita de gente.
Até bem pouco tempo, acreditávamos que o começo do Brasil tinha sido no dia 21 de abril de 1500. Foi assim que aprendemos nos bancos escolares na década de 1970. Éramos tão ingênuos, tão crédulos naquelas figuras que nos ensinaram a escutar, tão tolhidos em nossas percepções e sensibilidades, que não questionamos esse fato.
Agora sabemos que o começo é sempre um começo escolhido por alguém, por um grupo, com um propósito bem determinado,
Como tivemos nós aqui o poder dessa escolha, vamos começar nossa história relembrando um momento em que já não se podia mais manter a realidade da escravidão africana que – praticamente nos três séculos e meio anteriores – tinha sido a responsável pela produção de riqueza e ocupação territorial da ex-colônia portuguesa em que hoje vivemos.
Era o final do século XIX; desde 1850 a lei Eusébio de Queiroz estabelecera o fim do tráfico de escravos para o Brasil. Outras leis, implementadas gradativamente até culminarem na Lei Áurea (em 1888), foram redigidas para documentar e tornar oficiais a abolição da prática da escravidão, que já não mais condizia com a realidade de um mundo moderno, regido por ideais iluministas (que chegavam ao Brasil com certo atraso) de liberdade e de igualdade entre os povos.
Entretanto, a ocupação do território brasileiro além da faixa litorânea que, mesmo tardia, ganhara impulso com a descoberta do ouro e diamante em algumas regiões como Goiás e Minas Gerais, necessitava de material humano para se efetivar e para ter continuidade. A agricultura extensiva (de açúcar e de café, particularmente) e a agricultura intensiva, que fornecia alimento para a população nos centros urbanos, necessitavam mais do que mão de obra, mas também de pessoas que tivessem domínio de técnicas agrícolas.
Por outro lado, o Novo Mundo consistia um atrativo para a população de boa parte da Europa, que passava por uma profunda mudança econômica e demográfica, marcada pelo aumento da densidade populacional e da escassez de trabalho nas áreas rurais, devido a modernização dos processos agrícolas e das mudanças na distribuição da posse das terras. Para os europeus as Américas representavam abundância de terras férteis e acesso à riqueza. Além disso, o progresso e a melhoria das condições de transporte (marítimo e ferroviário) prometiam facilidades antes não sonhadas para alcançar o outro lado do Atlântico e desbravar o interior das novas terras.
O fluxo imigratório europeu para as terras americanas, espontâneo ou subsidiado pelo governo, alcançou grandes proporções, principalmente no período correspondido entre 1880 e a Primeira Guerra Mundial. Os Estados Unidos, a Argentina e o Canadá destacam-se pela absorção de grande volume de imigrantes espontâneos (...) No caso do Brasil (...) a maioria dos imigrantes veio em função dos subsídios oferecidos. (BOTELHO, TARCÍSIO R., BRAGA, MARIANGELA P., ANDRADE e CRISTIANE V., Imigração e Família em Minas Gerais no final do século XIX. Revista Brasileira de História. São Paulo, v. 27, nº 54, 2007, p. 157)
Minas Gerais apresentou algumas peculiaridades nesse processo. Embora não tenha sido o destino de grande massa de imigrantes neste período, a vinda dos europeus foi subsidiada pelo governo do estado com o propósito de favorecer o povoamento dos espaços rarefeitos do seu território e de promover mudanças qualitativas na agricultura, provendo tecnologia para uma exploração mais eficiente da terra. Assim, o imigrante não era destinado exclusivamente às fazendas de café (agricultura extensiva), mas a ele eram oferecidos alguns favores para ser proprietário de lotes rurais em alguns núcleos designados pelo estado.
É na década de 1890 que se organiza melhor o serviço de introdução de imigrantes no estado de Minas Gerais, acompanhando a tendência do Brasil como um todo. São aprovadas leis e emitidos decretos com a finalidade de viabilizar a introdução dos imigrantes. Nos passos desses diplomas legais, contratos são realizados e o governo estadual designa funcionários para acompanhar a saída desses imigrantes da Europa e sua chegada e estabelecimento no Brasil. No estado, os imigrantes são encaminhados para as hospedarias encontradas em diversas localidades (Juiz de Fora, Belo Horizonte, Estação de Vista Alegre, Estação da Soledade) seguindo o modelo largamente adotado em São Paulo (idem, p. 162).
No registro de imigrantes chegados à Minas Gerais, é observada a prevalência de italianos e espanhóis, notando-se igualmente a característica de consistirem núcleos familiares de menor ou maior porte.
Em 1898 existiam quatro núcleos coloniais mantidos pelo Estado: Rodrigo Silva, nas proximidades de Barbacena; Maria Custódia, no município de Sabará; Barreiros, nas proximidades de Belo Horizonte; e São João Del Rei. Esses núcleos concentravam uma população de 1.920 indivíduos, dos quais 1.360 eram estrangeiros. O relatório de 1898 informa ainda que além destes núcleos regulares, diversos outros existem em formação em estabelecimentos agrícolas particulares nos quais tem-se colocado quase todos os imigrantes recebidos no Estado (idem, p.163).
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Arvore genealógica tendo ao centro Moisés Marzano, pai de Luiz Marzano. |

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